quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O capital em movimento: ciclos, rotação, reprodução

É com prazer que divulgamos aos leitores deste blog o livro do professor Nelson Rosas Ribeiro, denominado "O capital em movimento: ciclos, rotação, reprodução". A seguir disponibilizamos uma breve resenha sobre o conteúdo do livro:

O livro II da obra de Marx "O capital", que tem como título geral "O processo de circulação do capital", continua a representar uma das maiores dificuldades aos estudiosos do pensamento deste autor. 
As razões para esta dificuldade paracem originar-se do fato de que Marx não teve o tempo necessário para prepará-lo convenientemente para a publicação. Engels, ao que tudo indica, não teve condições ou não quis fazer maiores alterações nos manuscritos, publicando-os como estavam.
Há duas outras razões que merecem referência: 1 - A abordagem feita desloca o foco para os capitais individuais que se movem nas organizações econômicas, nas empresas, abordagem que não é muito do agrado dos economistas marxistas. 2 -  Os dados e exemplos apresentados estão desatualizados e reportam uma realidade passada.
Os estudiosos da teoria econômica marxista geralmente, após o trabalho com o Livro l, passam diretamente ao Livro III, fazendo, quando muito, alguma referência aos esquemas de reprodução, que permitem um estudo macroeconômico. Este salto certamente cria grandes dificuldades para a correta compreensão da teoria de Marx.
O presente livro pretende expor, de forma mais clara e atual, os preciosos elementos da teoria marxiana contidos no Livro II, qie são imprescindíveis à análise do processo e acumulação do captal na sociedade moderna, procurando contribuir para a sua melhor compreensão. 




Aos interessados na aquisição do livro segue o email do PROGEB:

progeb@ccsa.ufpb.br
 


Roda de diálogo - Observatório Econômico

Olá Caros Leitores,

entre os dias 19 a 23 de outubro, será realizada a IV semana pela democratização da comunicação, cujo tema é "Democratizando a comunicação: a sociedade no controle". No dia 20 de outubro, dentro da programação da IV semana pela democratização da comunicação, o PROGEB participará de um espaço autogestionado, com o tema "A crise econômica e a mídia". Este espaço autogestionado ocorrerá às 09:00, na sala 402 do CCHLA. Convidamos os leitores a participarem deste evento e da roda de diálogo. 





quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Obervatório Econômico

O projeto “Observatório Econômico: Explicando a Economia” pretende disponibilizar de forma acessível os resultados da investigação crítica dos fenômenos da economia brasileira para a comunidade acadêmica, para as entidades de classe interessadas, as organizações sociais e a população de modo geral. Com isso, pretende-se criar um canal ativo de comunicação entre professores e alunos, em nível acadêmico, e entre a universidade e a sociedade, visando construir uma interpretação crítica da economia brasileira capaz de fornecer elementos para a ação social.

Contato para realização de palestras: progeb@ccsa.ufpb.br


terça-feira, 6 de outubro de 2009

A economia de muletas

Semana de 14 a 20 de setembro de 2009

Acaba de completar um ano o estouro do banco americano Lehman Brothers, que serviu como marco para a admissão da gravidade da crise, deflagrada nos EUA. Juntamente com ele, entraram, em ruptura, várias outras grandes instituições financeiras que antecederam a generalização do fenômeno a toda a economia. Passado o susto, agora aumenta o número de especialistas e representantes de governos que afirmam que a recuperação mundial será lenta. Também aumentam os partidários da idéia de que a atual crise terá uma trajetória similar a letra “W”, como temos afirmado em nossas últimas análises. Isto quer dizer que se generalizam os temores de que a lenta recuperação possa descambar em uma nova crise complementar.
O chamado “clube do W”, “W” de worry (preocupação, em inglês), é formado por economistas renomados como Ben Bernanke, presidente do Fed, William White, ex-chefe do Banco de Compensações Internacionais (BIS), e Nouriel Roubini, famoso por ter sido o primeiro a prever o advento da crise.
Para Roubini, por exemplo, existe um alerta para a possibilidade de uma nova queda na atividade econômica depois de uma recuperação. Mais enfático foi William White, o qual afirmou, em uma conferência em Hong Kong, que “o mundo ainda não resolveu os problemas subjacentes à crise”, e que os atuais sinais de recuperação não são sustentáveis. Já o presidente do banco central norte-americano, Ben Bernanke, espera uma recuperação moderada em 2010, com crescimento não muito rápido. A cautela estava presente em seu discurso apesar das animadas notícias sobre o aumento de 2,7%, em agosto, do consumo nos Estados Unidos, o maior em três anos, e da redução do número de desempregados. Contudo, o crescimento das vendas no varejo é resultado da ação dos programas do governo que subsidiaram a troca de veículos, das isenções fiscais para a compra de imóveis residenciais (que vão até novembro próximo) e da sazonalidade, já que agosto é o mês de volta às aulas.
Como se pode verificar, as ações governamentais, via pacotes de estímulo ao consumo e ajuda financeira, têm sido uma espécie de muleta, para ajudar as economias a se locomoverem.
Dados da Financial Economics Crisis mostraram que o tamanho do pacote fiscal, em relação ao PIB, chegou a 13% na China, 5,6% nos Estados Unidos e 4,7% no México. A conseqüência direta tem sido o aumento do endividamento dos governos. O governo federal estadunidense, por exemplo, vem aumentando suas dívidas a um ritmo anual de 28%. Já no Reino Unido, o déficit orçamentário deve dobrar neste ano, devendo atingir 12% do PIB.
Quem anda a desafinar o coro dos preocupados é o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que, além de negar o formato em “W” da crise no Brasil e defender o formato em “V”, comemora o crescimento de 1,9% do PIB do país no segundo trimestre do ano. Não refere, ele, que este crescimento foi fortemente favorecido pelo aumento do consumo das famílias e do governo, graças às medidas de política econômica adotadas, como, por exemplo, a desoneração de tributos, (IPI sobre carros e outros utensílios domésticos) o aumento do crédito, a redução das taxas de juros, etc.



PIB e setores (com ajuste sazonal) - Taxa (%) do trimestre em relação ao trimestre imediatamente anterior (*)
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Componentes da demanda (com ajuste sazonal) - Taxa (%) do trimestre em relação ao trimestre imediatamente anterior (*)
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Na mesma linha de pensamento está o presidente Lula, que, animado com o fim da recessão técnica no Brasil (resultado positivo do PIB após dois trimestres consecutivos de crescimento negativo), conclamou os empresários a retomarem os planos de investimentos que estavam engavetados. O presidente também não perdeu a chance de acrescentar mais uma expressão ao seu famoso repertório de frases de efeito ao dizer: “Agora não é mais o momento de dar antibióticos (para o país), é hora de dar vitaminas”.
Análises positivas a parte, a grande preocupação é quanto ao surgimento ou aumento de novos investimentos. Os resultados do PIB, do segundo trimestre, livre de influencias sazonais, mostram que a indústria cresceu 2,1%, mas os investimentos ficaram estagnados. Em comparação com os resultados obtidos no mesmo período em 2008, a indústria caiu 7,9%, e o investimento, 17%. Um dos indicadores que mostram a retração da oferta é a elevada capacidade ociosa da indústria, que se encontra atualmente abaixo da média histórica.



Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI)(*)
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Outra preocupação no ar é quanto à trajetória decrescente da arrecadação tributária federal, a qual registrou queda pelo décimo mês consecutivo. Nos oito primeiros meses de 2009, o total arrecadado sofreu uma redução de 7,9%. Os principais motivos para a diminuição nas receitas foram as desonerações fiscais, responsáveis pelo impacto negativo de R$ 17,3 bilhões nos cofres públicos, a queda do valor das importações e a retração da produção industrial. No que tange às importações e à produção industrial, tais indicadores diminuíram 31% e 12%, respectivamente, de janeiro a agosto deste ano.
Além disso, a redução no lucro das empresas abertas colaborou diretamente para a menor arrecadação do Imposto de Renda e da Contribuição sobre o Lucro Líquido (CSLL). Só no primeiro trimestre, houve recuo de 29,5% nos lucros das 149 empresas de capital aberto que divulgaram balanço.
A respeito da trajetória da arrecadação, no próximo semestre, o coordenador de Estudos, Previsão eAnálise da Receita, Raimundo Eloi de Carvalho, avalia que não se sabe qual será a situação no final do ano.
Já com relação à formação de empregos, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados eDesempregados (Caged), dos 437,9 mil postos criados no país no primeiro semestre, dois terços foramoriginados na área de serviços, que costuma ter empregos com remuneração mais baixa. No entanto, a indústria mostrou uma queda de 122,5 mil vagas de janeiro a julho de 2009.
Como se pode ver, a situação continua a não ser confortável.


Texto escrito por:
 Maria Carolina Costa Madeira: Jornalista, mestre em Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.
Email: progeb@ccsa.ufpb.br

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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Com quantas letras se faz uma crise?

Semana de 07 a 13 de setembro de 2009

Em análises anteriores, ressaltamos a falta de solidez nas afirmações de alguns economistas, os quais declaravam que o pior da crise mundial já havia passado. Embora as estatísticas confirmem que alguns setores estão realizando contratações e, de fato, retomando a produção, alertamos que isto pode ser essencialmente uma resposta aos estímulos dados pelos governos. Assim, levantamos a hipótese de que a crise atual possa vir a assumir o formato de “W”. Isto quer dizer que, após a queda, a retomada suave, que agora parece se ter iniciado, poderá ser seguida por uma nova crise, uma crise que complementaria a destruição das forças produtivas poupadas pela atuação dos governos, que atingiu níveis nunca antes vistos.
No Brasil, alguns dados nos mostram que esta retomada poderá ser efêmera, pois se baseia na redução da capacidade ociosa existente na indústria, na produção para a reposição dos estoques e nos estímulos da redução dos juros e dos impostos.
Após uma queda de 18,9% entre setembro e dezembro de 2008, a indústria de transformação viu sua produção aumentar 8,5% de dezembro de 2008 a julho de 2009. Mas esse aumento foi baseado no crescimento do Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci), o qual se encontrava em 85,4%, em setembro do ano passado, chegou a 77,8% em março de 2009 e, em julho, voltou a subir, atingindo 79,8%.  



Índice de produção industrial para a Indústria de Transformação e para o setor de Bens de Capital - índice dessazonalizado. (média 2002 = 100) (*)
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Já a produção na indústria geral teve uma retração de 20,2% de setembro a dezembro de 2008 e uma expansão de 12% de janeiro até o mês de julho de 2009, atingindo, no período, uma variação total de -10,6%. Durante os mesmos meses de 2008, a produção de máquinas e equipamentos caiu 30,8%, enquanto que, no período seguinte, houve uma recuperação de apenas 2,5%, o que representa um saldo total negativo de -29,1%, se considerarmos o período entre setembro de 2008 e julho de 2009. Como a indústria de bens de capital é a “indústria das indústrias” e responde pelas encomendas de todo o setor, a sua contração nos indica que, na verdade, não houve uma recuperação de fato, pois não houve investimentos, mas apenas um aumento da produção baseado na maior utilização da capacidade ociosa. Enquanto o setor industrial não retomar os investimentos, não se pode falar em uma verdadeira recuperação.



Nível de utilização da capacidade instalada (NUCI) para a indústria de transformação(*)
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Além deste sintoma de falsa recuperação, os dados do período que vai do terceiro trimestre de 2008 ao segundo e terceiro trimestres de 2009 (ainda em andamento) reforçam nossas afirmações: as vendas no varejo subiram 2,6%, enquanto o emprego formal caiu 0,5%, o que pode ser explicado pelo aumento de 9%, do crédito à pessoa física. Já o crédito à pessoa jurídica, destinado às empresas, teve uma redução de 8,1%. Em relação ao consumo de energia, as residências aumentaram de 5,9% seu consumo (em GWh), enquanto o consumo industrial caiu 10,4%. Merece destaque o setor automotivo, cujas vendas aumentaram 5,5% e sua produção reduziu-se 3,3%.




Consumo mensal de energia na indústria - Jan. 08/Jul. 09(*)
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Este é o cenário da economia atual. Depois da evolução dos investimentos, entre os anos de 2006 e
2008, o país vive um momento de contenção. A Formação Bruta de Capital Fixo (que representa os
investimentos em edificações, máquinas e equipamentos) no Brasil saltou, de 9,8% em 2006, para 13,5% e 13,8% em 2007 e 2008, respectivamente. Porém, a previsão para o ano de 2009 é que essa taxa decresça de 10% a 15%. Para o ano atual, isto representa R$146 bilhões a menos do que o previsto em setembro de 2008.




Formação Bruta de Capital Fixo - base móvel (média do ano anterior = 100)(*)
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A nível mundial, a utilização da capacidade ociosa também vem aumentando e é fruto dos estímulos setoriais dados pelos governos. Já foram trilhões de dólares diretamente injetados nas economias, planos de intervenção e reestruturação de empresas, além de diversas formas de transferências utilizadas como contrapartida para quem perdeu o emprego. Tudo isso contribuiu para a tentativa de manter o aquecimento da economia no momento de crise. E dura até hoje.
No Reino Unido, a indústria registrou um avanço de 0,9% de junho para julho, puxada pelo setor de transportes (crescimento de 10,4%), que se beneficiou de um programa do governo para a compra de automóveis. Já a China teve uma alta recorde de 90% nas vendas de carros no mês passado. Isto foi reflexo dos cortes nos impostos e do aumento nos subsídios. Este ano, a China liberou um pacote de US$ 585 bilhões para proteger a economia da recessão mundial, estimulando diversos setores, como o automotivo, que cresceu 45% durante quatro meses seguidos.
Aqui no Brasil o PIB cresceu 1,9% no segundo trimestre de 2009. Quando comparado com o mesmo período do ano passado, há uma retração de 1,2%. Este resultado é atribuído ao aumento do consumo das famílias, que foi de 3,2% em relação ao mesmo período do ano passado e 2,1% em relação ao 1º trimestre de 2009. No entanto, a indústria teve uma queda de 7,9% em comparação com 2008 e um crescimento de 2,1% em relação ao trimestre anterior.
O consumo do governo também influenciou o PIB, na medida em que teve um aumento de 2,2% em relação a 2008. Quando comparamos período por período, esse consumo apresenta uma queda 0,1% em relação ao 1º trimestre de 2009. Mas, no primeiro semestre do ano, o aumento foi de 2,5% em relação ao mesmo semestre de 2008 e de 4,2% nos 12 meses encerrados em junho.

Isso cria temores para muitos economistas, que vêem a possível retirada dos estímulos governamentais como um risco. Na opinião de Dominique Strauss-Kahn, Diretor Geral do Fundo Monetário Internacional, “as políticas públicas de suporte não devem ser suspensas. A demanda privada ainda está extremamente fraca e correríamos o risco de uma recaída”. Timothy Geithner, Secretário do Tesouro Americano, afirma que, apesar da tentativa de redução da ajuda dada às empresas por parte do governo, “precisamos continuar reforçando a recuperação até que ela seja autossustentada e liderada pela demanda privada”. Ele procurou dar garantias de “não puxar o freio cedo demais”. Os efeitos de tais ações criaram um problema: se o governo soltar a mão da economia, será que ela continuará andando sozinha, na trajetória de crescimento?
Talvez esta pergunta possa ser respondida com uma letra: a letra “W”. 


Texto escrito por:
Lucas Milanez de Lima Almeida: Professor Substituto do Departamento de Economia da UFPB, Mestrando em Economia pelo CME-UFPB e membro do Progeb.  
Email: progeb@ccsa.ufpb.br

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