quarta-feira, 16 de março de 2011

Dilema do fundo do mundo: Crescimento ou Inflação?

Semana de 07 a 13 de março de 2011

Continua a lenta recuperação da economia global e, por maior que sejam os esforços das instituições governamentais, financeiras e do conjunto dos agentes econômicos ativos, persiste algum pessimismo.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) orienta os bancos centrais a colocarem entre os seus objetivos explícitos, além do controle da inflação, a estabilidade financeira e metas claramente delineadas sobre as taxas de câmbio.

Na realidade, nos próximos tempos, o foco principal da política financeira deverá estar voltado para o controle da inflação, utilizando-se dos mecanismos taxas de juros e câmbio. Mas, a realidade econômica do mercado, sendo este soberano, é bem mais rica na sua diversifidade, e as intenções distanciam-se da prática corrente com muita frequência. E, embora muitos acreditem que juros baixos podem alimentar bolhas, os juros altos não garantem a estabilidade financeira que tanto se deseja.

Mas, além das contradições internas da política econômica de cada país, os efeitos entre as economias, em um planeta globalizado, são incontroláveis. Assim, uma mudança na política econômica da China, em busca de uma nova estratégia de crescimento, necessariamente terá efeitos sobre as economias que se relacionam comercialmente com ela. Trata-se, nesse caso, de uma economia gigante, calcada num modelo exportador em fase de esgotamento, segundo a avaliação do Congresso Nacional do Povo, iniciado a 04 deste mês, que discutiu o Plano Quinquenal do período que vai de 2011 a 2015. A proposta é voltar-se para o mercado interno e, para tal, terão de ser introduzidas alterações na distribuição de renda, com aumento salarial, o que pode acarretar elevação dos preços dos produtos exportados. Outro efeito será a redução das importações. A demanda por aço, por exemplo, que nos últimos cinco anos aumentou em média 17%, deve desacelerar para 6% ou 7%. Cerca de 30% do comércio chinês é feito com países em desenvolvimento. Especificamente no caso do Brasil, 80% das exportações brasileiras para a China são de commodities agrícolas e minerais, e 90% das importações são de produtos manufaturados.

Além da economia chinesa e sua irrefutável influência no mundo econômico global, outras variáveis contribuem para o desequilíbrio planetário, tais como as quedas sucessivas do euro e os preços do petróleo, esta última, sem dúvidas, influenciada por fatores políticos como a rebelião, ou guerra civil, na Líbia. Acrescente-se agora os fatores naturais como a catástrofe do Japão ainda com proporções desconhecidas.

No Brasil, o Banco Central tenta ser o principal protagonista da vida econômica procurando controlar a inflação, mantendo o crescimento, sem explicitar, porém, se o fará nas formas “dovish” (pombos) ou ”howkish” (falcões), mas sinalizando para o governo quais devem ser as suas principais preocupações.

A primeira, ter como meta central o controle inflacionário; a segunda, dirigida à Fazenda, sobre o controle das ações parafiscais e reajustes salariais do setor público; a terceira é para que “não se pegue pesado” na reversão das taxas de câmbio.

O Comitê de Política Monetária (COPOM), na última reunião, deu sua contribuição elevando a taxa de juro em 0,50 ponto percentual, passando a Selic para 11,75% a.a. Sob o estímulo dessas altas taxas de juros, o fluxo cambial para o Brasil aumentou assustadoramente. Nesse momento, no espaço de dois meses, ele já supera o volume registrado no ano passado, atingindo o montante de US$ 24,356 bilhões, dos quais o BC comprou US$18,722 bilhões na tentativa de amortecer os impactos de tal volume de dólares na cotação da moeda brasileira.

Nesta dificil situação, enquanto o país vacila no falso dilema entre crescimento ou inflação ouvem-se as críticas dos cérebros da nossa economia. Pela esquerda Carlos Lessa chama os movimentos do PIB de “esvoaçar cacarejante, num nível de chão de galinheiro” “o Brasil continua um pigmeu em relação a uma China, que pratica taxas de investimento de 40% do PIB. Ou de uma Índia, acima de 30%...” (esta taxa no Brasil, em 2010, foi de 18%). Pela direita Delfim Neto compara: “Enquanto a China está se pensando para 2050, o Brasil continua a se pensar para 1990”.

Texto escrito por:
Elivan Gonçalves Rosas Ribeiro: Professora do Departamento de Economia da UFPB e Pesquisadora do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. progeb@ccsa.ufpb.br; www.progeb.blogspot.com

quinta-feira, 10 de março de 2011

Contra o “PIBÃO”..., desaceleração

Semana de 28 de fevereiro a 06 de março de 2011

Afinal, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou oficialmente a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), em 2010: 7,5%. É um crescimento notável que não se via há muitos anos. De tão extraordinário, a presidenta Dilma não conteve a exclamação: é um “PIBÃO”. Comemoremos, pois, o grande feito já previsto e comentado antecipadamente nesta coluna, em análises anteriores. O ministro Mantega está de parabéns.

O que parece paradoxal é que em vez de exultar, o governo arranca os cabelos e anuncia medidas para conter o crescimento considerado insustentável. O governo Lula, atendendo aos anseios populares, no justo empenho em combater a pobreza, distribuiu renda, elevou os salários, em particular o mínimo, estimulou o consumo, aumentou o crédito, reduziu os impostos, etc. Conseguiu o que pretendia: o consumo das famílias cresceu 7% em todo o ano, em relação a 2009, número inferior ao do crescimento da indústria que foi de 10,1%. Mas, o resultado em vez de ser comemorado, provocou uma onda de fúria recessiva. O país não pode crescer neste ritmo. Segundo o ministro Mantega, estamos “visando o ajuste anticíclico da economia. É para desacelerar a economia sem derrubá-la. É sair de um patamar de 7,5% de crescimento para 5%.” Isto é, crescer a 7,5% a China pode, a Índia pode, até a Rússia pode, mas o Brasil, não.

É preciso frear o crescimento, conter o consumo, reduzir os investimentos e a produção. As armas já estão preparadas e testadas. Elas compõem a santíssima trindade da política econômica: juros, medidas macroprudenciais, redução de gastos públicos. O Conselho de Política Monetária (Copom) deu sua contribuição aumentando os juros básicos em 0,5%, como era previsível, fixando a taxa Selic em 11,75%. Além de tomar uma decisão por unanimidade, o Copom deixou claro que outras elevações se seguirão. As medidas macroprudenciais já estão em pleno vigor, e há quem estime que o seu efeito corresponde a uma elevação dos juros de 0,75%, o que, do ponto de vista de um aperto monetário, equivaleria a uma Selic de 12,5%. O ministro Mantega já começou a dar indicações de onde e como vai cortar os R$ 50 bilhões das despesas. Até o programa “Minha Casa Minha Vida” será atingido com uma perda de R$ 5,1 bilhões.

Já se comenta que toda esta bateria de medidas está surtindo efeito. No quarto trimestre de 2010, a economia desacelerava e não acompanhava o consumo das famílias. Estimam os analistas que este ritmo aproximava-se dos 3%. O PIB da indústria de transformação caiu 0,4%. A demanda doméstica foi atendida pelas importações que cresceram 3,9%. Mesmo quando consideramos os dados para todo o ano, a situação não parece melhorar, já que, para o crescimento de 10,1% da indústria, a maior contribuição foi dada por setores industriais como o setor extrativo, que cresceu 15,7% (graças às exportações), e a construção civil, que cresceu 11,6%, (graças à ajuda do governo para ganhar as eleições). O segmento de transformação contribuiu apenas com 9,7%.

Embora a desaceleração já esteja sendo sentida e, para 2011, alguns economistas estejam corrigindo as estimativas, dos 5% desejados, para 4% ou mesmo 3,7%, o pânico continua e é causado pelo velho fantasma: a inflação. O fenômeno preocupa o mundo e é considerado global, chamando a atenção do Banco Central Europeu, que também se prepara para o aumento dos juros. No Brasil, neste momento, o centro da meta de 4,5% já está perdido e a luta deslocou-se para o extremo de 6,5%, que é o teto. E as notícias não são muito boas. A começar com os preços administrados, que insensatamente o próprio governo aumenta, e pelas perspectivas do exterior que apontam para a manutenção do crescimento dos preços das commodities. Isto se a crise dos países árabes não estourar com o preço do petróleo. Caso isto ocorra, será um Deus nos acuda. Neste clima de terror, o arrocho vai prosseguir e as famílias serão impedidas de consumir. Este é o preço a pagar pelos 7,5% eleitoreiros.

Assim, com Mantega ou sem Mantega, neste ano de 2011, a poupança do povo brasileiro terá de sofrer as conseqüências do PIBÃO do presidente Lula em seu último ano de governo.


Texto escrito por:

Nelson Rosas Ribeiro: Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).

terça-feira, 1 de março de 2011

A culpa é da inflação

Semana de 21 a 27 de fevereiro de 2011

O ex-presidente Lula deixou uma herança que o novo governo teve que engolir: a ameaça da inflação. A farra de gastos no período eleitoral, se bem que tenha dado uma importante contribuição para ganhar as eleições, significou o aumento das despesas do estado e da dívida pública. Assim, ao terminar o ano de 2010, não se havia cumprido a meta de superávit primário (diferença entre receita e despesas do estado antes do pagamento de juros).

Iniciado 2011, a ameaça se transformou em realidade. A inflação bate à porta e com força. Ora, começar um mandato tendo como objetivo maior o combate à inflação não é das coisas mais agradáveis, até porque as medidas que constam do receituário oficial são antipopulares. É consenso entre os analistas do governo que a inflação ficará bem acima do centro da meta de 4,5%. De acordo com o sistema adotado pelo Banco Central (BC), a faixa tolerada para a inflação vai de 2,5% a 6,5%, isto é, 2 pontos percentuais acima e abaixo de 4,5%, que é considerada a meta procurada. Para atingir esta meta, todos pensam que não basta apenas aumentar os juros, o aumento deve vir inevitavelmente acompanhado das tais medidas macroprudenciais.

Com os juros em alta, a farra financeira deve continuar para a felicidade dos agentes econômicos do sistema financeiro. O Itaú-Unibanco divulgou um lucro de R$ 13,32 bilhões em 2010, 32,3% superior ao mesmo período do ano anterior, enquanto o setor produtivo agoniza. A indústria brasileira de embalagens, termômetro da atividade econômica, por exemplo, depois de uma expansão de 10,13% em 2010, espera crescer apenas 2,2% este ano. É consensual a desaceleração da economia que vem sendo observada. As previsões para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) vão sendo revistas para abaixo dia após dia, apesar das garantias dadas pelo ministro da Fazenda Guido Mantega de que não é objetivo do governo deprimir a atividade econômica, mas acomodá-la.

Para tecer comentários sobre a eficácia das medidas que vão sendo adotadas, a grande questão que se põe é saber a origem da aceleração inflacionária atual. Culpados são indicados por todos os lados: o reajuste de 16% no piso salarial dos docentes da rede pública, o aumento do salário mínimo, o excesso de gastos públicos, as pressões sazonais, o descompasso entre oferta e demanda, o aumento dos preços das commodities, a crise nos países produtores de petróleo do mundo árabe, a melhor distribuição de renda, etc.

Agora, mais um vilão é apontado: o setor de serviços, que apresentou alta no preço dos alugueis, transportes e mensalidades escolares, ou seja, a culpa é dos preços livres.

E os preços administrados (preços controlados pelo governo)? Parece que, propositadamente, eles são esquecidos. Do total do IPCA do ano passado, os preços administrados foram responsáveis por 3,13% e, segundo estimativas para 2011, a inflação destes preços deve corresponder a uma parcela de 4,5%. Como combater um monstro que o próprio governo está ajudando a criar?

Por outro lado, o Banco Central ainda tem que lidar com outro mal assombrado: a questão cambial. Mesmo com as intervenções diárias que a instituição tem feito no mercado, através da compra de divisas, tanto à vista como a termo, a taxa de câmbio não reage e o dólar teima em desvalorizar-se. Enquanto isso, a enxurrada de dólares continua vindo do exterior. Em janeiro, foram quase US$ 3 bilhões e, até 21 de fevereiro, este montante já ultrapassava os US$ 3,6 bilhões. Desesperado para impedir que o dólar se dissolva, o BC intervém no mercado. Para retirar os dólares que entram, o BC tem de comprá-los injetando dinheiro na economia. Este dinheiro ou vem de emissões de moeda ou da venda de títulos do tesouro que rendem algum tipo de remuneração cujo montante situa-se em torno da Selic (atualmente em 11,25%). Além de contribuir para a inflação e aumentar a dívida pública, o BC tem que arcar com o custo de manutenção das reservas, que, segundo a própria autoridade monetária, foi de R$ 26,6 bilhões em 2010.

Para combater os monstros que insistem em aparecer, opta-se então pelo caminho mais fácil: fazer cortes no orçamento e aumentar as taxas de juros, afinal esta é a receita de bolo que é aplicada em todas as economias. Como o fechamento desta coluna acontece na terça-feira e a reunião do Copom será realizada na quarta, o leitor já deverá ter conhecimento de mais uma alta da taxa de juros que, segundo as estimativas, deverá situar-se entre 0,5% e 0,7%. Será mesmo tudo culpa da inflação?

Texto escrito por:

Rosângela Palhano Ramalho: Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)

Desaceleração, remédio contra a inflação

Semana de 14 a 20 de fevereiro de 2011

Ainda continuamos vivendo sob o impacto dos bons ventos que sopraram em 2010, em boa parte estimulados pela política econômica do governo Lula, para ganhar a eleição. As estimativas continuam a ser divulgadas enquanto o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não apresenta os dados oficiais. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) é estimado em 7,8% pelo Índice do Banco Central (BC), embora ele próprio trabalhe com uma taxa mais modesta de 7,3%. A maior parte dos analistas sugere taxas em torno dos 7,5%. Estes valores, considerados muito elevados quando comparados com o resto do mundo (excetuando-se Índia e China), são secundados por notícias sobre a redução da pobreza e do desemprego, sobre a elevação dos salários e melhoria na distribuição de renda.

Mas, conforme havíamos previsto, a fatura da orgia seria paga em 2011, o que já está acontecendo, ou seja, mais uma vez confirma-se a teoria do “ciclo político”. Aperto no início do governo e esbanjamento no final, para ganhar as eleições, confiando na ingenuidade e na fraqueza da memória do povão. A grande desculpa foi a necessidade de melhorar as condições de consumo das camadas mais desfavorecidas da população.

Ganhas as eleições e empossado o novo governo, a conversa mudou. A equipe econômica do governo Dilma desespera-se agora para reverter o quadro. É preciso conter o consumo, reduzir os gastos do governo, deter os investimentos, comprimir os salários, etc. As medidas recessivas se sucedem como sempre sob a batuta do BC, agora com o presidente Tombini ameaçando com a “trombada” dos juros, que já subiram para 11,25% ao ano. E isto, reforçado pelas medidas “macroprudenciais”: recolhimento compulsório (que já retirou R$ 65 bilhões do mercado), exigências de capital adicional para financiamentos com mais de 24 meses (que já fez as taxas de juros do crédito pessoal subirem, de 40,3% para 49,3% ao ano, na última semana de janeiro, provocando a queda de 19% na média diária dos novos financiamentos. No setor de automóveis, as taxas de juros subiram entre 4% a 5%, e a média diária de créditos concedidos caiu 45% para os bancos comerciais e 35% para os bancos das montadoras.

As notícias sobre a desaceleração da economia espalham-se por todo o lado. O próprio ministro da fazenda, Guido Mantega, sempre muito otimista, estima que a desaceleração fará a taxa de crescimento do PIB cair para 5%. Muitos analistas do mercado reduzem este número para 4,5% e, cada vez mais, os rumores afirmam que este valor terá de ser corrigido para baixo. Como já dissemos anteriormente, a saída da crise, no Brasil, está se configurando como uma saída em W.

Ainda não satisfeito com a situação, o governo resolveu dar mais uma contribuição ordenando um corte de R$ 50 bilhões no orçamento já aprovado. Como explicar tamanha incoerência? Tomam-se medidas para aumentar os níveis de consumo da população e agora se usam todos os meios para impedir este consumo. Quais seriam as razões para explicar tal insensatez? Por incrível que possa parecer a razão é uma só: o medo do fantasma da inflação. Na verdade, a inflação é um monstro que ninguém quer encontrar no seu caminho. Em relação a isto, há unanimidade. As divergências surgem quando tentamos caracterizar, descrever, explicar o fenômeno e desvendar as suas causas, passo necessário para que o combate tenha sucesso. É aí que o bicho pega. A equipe do governo, contaminada pela ideologia dominante na teoria econômica, transformou em lei absoluta e eterna a formulação primária de que a inflação é provocada pelo excesso de procura em relação à oferta. Tomando isto como verdade eterna, desencadeiam todos os mecanismos possíveis para conter, comprimir, esmagar o consumo, quer seja das pessoas, do estado ou das empresas. Esta aberração teórica está por traz da ação do governo Dilma e o inspira.

Preparemo-nos, pois o arrocho chegou. E com o agravante de ter que enfrentar simultaneamente a enxurrada dos dólares especulativos internacionais, com a consequente valorização do real que vem impossibilitando a indústria nacional de exportar e levando o país a um processo de desindustrialização acelerado que urge deter.

Texto escrito por:

Nelson Rosas Ribeiro: Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A ameaça da inflação

Semana de 07 a 13 de fevereiro de 2011

Nas últimas análises, destacamos a fé da equipe econômica do governo Dilma em sua “santíssima trindade”: aumentos sucessivos da taxa básica de juros (Selic), uso das “medidas macroprudenciais” (aumento dos depósitos compulsórios dos bancos no Banco Central - BC e restrição do crédito) e redução dos gastos públicos.

A Selic continuará sua trajetória ascendente, em 2011. Espera-se que, até o final do primeiro semestre, ela suba para 12,25% ao ano. Em janeiro ultimo, a taxa foi elevada de 10,75% para 11,25% ao ano. O governo federal anunciou na semana passada um corte de R$ 50 bilhões nas despesas previstas no projeto da lei orçamentária de 2011. A presidente Dilma acredita que, com esse pacote de ações, se possa controlar a inflação e conseguir honrar os compromissos, como a economia de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) para o pagamento dos juros da dívida – o superávit primário. Isto, sem reduzir os recursos do PAC e sem a realização de manobras na contabilidade.

Mas, um novo componente surgiu para desafinar o coro dos crentes: a escalada inflacionária dos alimentos. O aumento dos preços das commodities é generalizado, e vem preocupando dirigentes políticos da Europa, Ásia e Américas. Por um lado, o processo inflacionário se deve à queda de produção das safras de bens, como açúcar, milho e trigo, em várias partes do mundo. A Rússia, por exemplo, sofre a pior seca em meio século, e a China passa a considerar a ampliação de importações de açúcar e milho, em decorrência de reflexos climáticos adversos às produções desses grãos. Por outro lado, está diretamente relacionado com a especulação dos mercados financeiros, o que tem levado o primeiro-ministro Sarkozy, na França, a defender a ideia de intervir nos preços das commodities por meio da criação de estoques reguladores.

No Brasil, em pronunciamento numa reunião da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, atribuiu boa parte da alta dos preços à atividade especulativa realizada pelo capital financeiro. Analistas do mercado subscrevem o pensamento do ministro, já que há uma ampla procura pelos mercados futuros por parte dos investidores em busca de rentabilidade em meio a um ambiente de juro baixo na maioria dos países europeus e nos Estados Unidos. “Os preços das commodities são voláteis, mas sobem há vários anos. A percepção é que o mundo está vivendo um super ciclo de aumento de commodities. A inflação veio para ficar e é tema global”, avalia Marcelo Carvalho, analista-chefe do BNP Paribas para a América Latina.

Dados sobre os índices de inflação para o primeiro mês de 2011 indicaram aumento generalizado nos preços. No Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a subida não decorre apenas de sazonalidades, como despesas com mensalidade e material escolar, mas também do aumento das tarifas de ônibus, das bebidas e da alimentação. Este último grupo foi responsável por 32% da alta do IPCA. O índice sofreu a maior variação para o mês (0,83%), desde janeiro de 2003. Em 12 meses subiu 5,99%, já se afastando da meta central de inflação do governo, que é de 4,5%.

Já pelo Índice geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) as maiores altas foram dos produtos agropecuários no atacado, como o algodão (18%), milho em grão (6,59%), café em grão (8,12%). As cotações agropecuárias acumulam variação de 28,4% em 12 meses. Para o coordenador de analises econômicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Salomão Quadros, estes movimentos refletem a disparada das commodities no mercado internacional. É bastante provável que a alta dos preços produza impactos no varejo nos próximos meses, acabando a alegria gerada pelo aumento do salário mínimo a ser concedido pelo governo Dilma.

Apesar da santíssima trindade, com as medidas de contenção do consumo, persiste a escalada dos preços ameaçando comprometer o nível de vida do trabalhador.

Além de queda, coice! E agora, BC?


Texto escrito por:

Maria Carolina Costa Madeira: Analista do Ministério da Pesca e Aquicultura, mestre em economia pela UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira (progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).