sexta-feira, 9 de março de 2012

O “Tsunami monetário”

Semana de 27 de fevereiro a 04 de março de 2012

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

“Nos preocupamos, sim, com esse tsunami monetário [dos] países desenvolvidos que não usam políticas fiscais de ampliação da capacidade de investimento para retomar e sair da crise que estão metidos e que usam, despejam, literalmente, US$ 4,7 trilhões no mundo”. Este é um trecho do discurso, em tom de protesto, da presidente Dilma Rousseff numa cerimônia oficial no Palácio do Planalto.

Para entender o motivo desta declaração, vamos aos fatos. Não foi ontem que a economia mundial entrou numa crise que só tem comparação com a Grande Depressão da década de 1930. Desde que os empresários começaram a sentir o impacto da chamada Crise do Sub-Prime em 2007, os governos da maioria dos países interviram na economia para salvar suas empresas, a exemplo da GM, Bank of America, AIG, dentre muitos outros.

Diante da então crise financeira, que, grosso modo, está ligada à disponibilidade e à oferta de crédito, os Estados despejaram trilhões de dólares nos bancos. Isto foi feito porque, se os bancos ficassem descapitalizados, as pessoas e os empresários não teriam como obter dinheiro para comprar ou investir. Entre os “economistas oficiais”, este é o motivo mais aceito como explicação do contágio do chamado lado real da economia.

Com o “despejo”, por meio da política monetária expansionista, esperava-se que boa parte do dinheiro escorresse para as mãos da população, o que não aconteceu. O principal uso deste capital foi para uma operação chamada de “carry trade”, onde os bancos tomam empréstimos em países que cobram taxas de juros baixas e emprestam, principalmente por meio da compra de títulos do governo, a outros países onde a taxa de juros é elevada. Em 2008, por exemplo, o Banco Central estadunidense estabeleceu como taxa básica de juros para a economia um valor que variou entre 0% e 4%. Já o Banco Central brasileiro decretou uma taxa que variou entre 11,25% e 13,75% ao longo do mesmo ano. A operação “carry trade” ganha em cima deste diferencial entre os juros dos países. Diante da tentadora diferença, parte dos US$ 4,7 trilhões mencionados por Dilma se destinou aos países em desenvolvimento, inclusive (e se tratando de “carry trade”, talvez principalmente) ao Brasil. Com isso, em 2008, o dólar chegou a ser cotado a R$ 1,59. Atualmente, para comprar um dólar, o brasileiro deve desembolsar em torno de R$ 1,75.

O problema é que, a esta taxa de câmbio, a indústria brasileira sofre por todos os lados: fica mais caro vender para o setor externo e não consegue competir com os importados no mercado interno. O resultado disto é a redução na produção e, consequentemente, no emprego. A Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) publicou que um total de 2,32 mil funcionários foram demitidos, só nos últimos dois meses de 2011. Além disso, em janeiro de 2012, a utilização da capacidade instalada ficou em 75,8% e a perspectiva é de que, no resto do ano, haja uma redução de 20% na produção, o que leva a crer que haverá mais demissões este ano. Para piorar, a expectativa é de que, em 2012, o déficit da balança comercial do setor supere os US$ 17,88 bilhões do ano passado, atingindo a cifra de US$ 20 bilhões. Segundo o Dieese, o desemprego, em sete regiões metropolitanas do Brasil, subiu dos 9,1%, atingidos em dezembro de 2011, para o patamar de 9,5% em janeiro de 2012. Já o Índice de Nível de Atividade da indústria de transformação de São Paulo mostrou um recuo de 0,8% entre janeiro e dezembro passado. Segundo o estudo, os setores que mais sofreram foram os de máquinas e o automobilístico.

Sem esta situação cambial, a indústria poderia ter sofrido menos com os efeitos da crise, já que o governo brasileiro tomou medidas de política fiscal expansionistas, tais como a desoneração de alguns produtos e, principalmente, o aumento do salário mínimo. E todos sabem disto, pois, agora, estão tentando desesperadamente conter a apreciação do real, por meio da intervenção direta no mercado de câmbio e por meio da taxação sobre os falsos investimentos estrangeiros diretos (dinheiro que, por exemplo, é enviado pela matriz para investimento, mas a filial utiliza para especular, dentre outras opções, com os títulos do Tesouro). A situação é tão grave que, novamente, capitalistas e proletários se uniram contra a desindustrialização no país.

O pior é que Banco Central Europeu aprovou nova enxurrada de € 530 billhões para 800 bancos do continente, a uma taxa de 1% ao ano. O problema é que, com uma taxa de juros de dois dígitos, quem não vai querer colocar seu Tsunami monetário para cima do Brasil?



[i] Mestre em Economia, professor do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com.).

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A carroça grega passa sobre o povo grego

Semana de 22 a 25 de fevereiro de 2012

Tatiana Losano de Abreu [i]

Não é de espantar que a Grécia continue a ser tema recorrente em Análise & Conjuntura, já que a economia grega é uma bomba relógio prestes a explodir sobre toda a zona do euro. Como já era esperado, após 12 horas de negociações entre os ministros de finanças da região, foi aprovado mais um “auxílio” para o país que hoje acumula uma dívida soberana equivalente a 164% do PIB.

O termo “troika” é uma palavra russa que significa três cavalos alinhados lado a lado, reunindo esforços para puxar uma carroça. Este termo é recorrentemente utilizado para designar a aliança entre os três cavalos – Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu (BCE) e União Européia (UE) – para mudar a rota da carroça grega que vai em direção ao calote inaceitável, principalmente pela Alemanha. Desta vez, um pacote de 130 bilhões de euros foi aprovado após o comprometimento do governo grego em dobrar a dose de sacrifício exigida do povo grego. Medida semelhante foi tomada no primeiro semestre de 2010, quando foram disponibilizados 110 bilhões de euros ao país. A partir dessa data, o governo grego se dedicou a colocar em prática medidas de austeridade fiscal impostas pela equipe da “troika” na garantia da “ajuda financeira”. O povo grego sentiu o sacrifício na pele através da redução dos salários, dos direitos trabalhistas e da alta taxa de desemprego.

No entanto, os líderes europeus consideram que o governo grego não tem feito a sua parte e o acordo não está sendo cumprido. Desta vez, o segundo pacote financeiro só foi aprovado à custa da soberania do país e será disponibilizado aos poucos, de acordo com as necessidades e a execução do programa de austeridade. A Grécia foi obrigada a submeter os rendimentos do Estado ao pagamento da dívida contraída junto à “troika” e aos credores privados antes de qualquer outra despesa, como o pagamento de salários e aposentadorias. Uma equipe de representantes da “troika” permanecerá na Grécia para assegurar o cumprimento dos termos e condições do pacote. Os anos de austeridade foram ampliados. Lucas Papademos, primeiro ministro grego, prevê desempregar 198 mil funcionários públicos, além de cortar 25% das receitas do orçamento em 2012. Os dois principais partidos políticos, que irão disputar eleições em abril, o Pasok, socialista, e a Nova democracia, de direita, tiveram que se responsabilizar em não mudar os planos, após as eleições. Mesmo com a pressão institucional sobre o governo grego, a “troika” admite a possibilidade de o país chegar a 2020 com uma dívida que ainda representará 160% do PIB. De fato, a austeridade sobre a economia local só irá agravar o cenário recessivo que o país apresenta há cinco anos, empobrecendo a região e diminuindo a receita do Estado, além de agravar a raiva acumulada de inúmeros setores da sociedade que estão nas ruas expressando o descontentamento com a aprovação do acordo que foi baseado nas últimas estimativas da Comissão Europeia. Segundo estas estimativas, o PIB grego encolherá apenas 4,3% este ano, depois da queda acumulada de 6,8% em 2011, e estagnará em 2013. Outra opinião têm as agências de consultoria locais. Para elas, o PIB cairá 8% em 2012 e 7% em 2013.

No que se refere ao cenário internacional, a Comissão Européia mostrou-se menos otimista. Em relação à economia italiana, a previsão é de uma contração de 1,3%, em 2012, depois de uma ligeira recuperação nos dois últimos anos. A Alemanha, depois de apresentar um crescimento de 3,0% em 2011 e 3,7% em 2010, deverá crescer apenas 0,6% em 2012. A economia irlandesa vai crescer apenas 0,5% em 2012, metade do que foi previsto anteriormente.

Para evitar que a instabilidade da Zona do Euro se propague, o Fundo Monetário Internacional precisa de US$600 bilhões. Por enquanto, o fundo possui apenas US$240 bilhões, vindos dos próprios europeus. Brasil, China e Índia já demonstraram a disposição de participar com recursos adicionais, mas cobram que os europeus deixem de bater o pé sobre algumas exigências: a ratificação da reforma de 2010 que ampliou o poder de voto dos emergentes no FMI e a revisão da forma de cálculo para nova redistribuição de cotas, ou seja, a mudança do poder de decisão no Fundo. Mais da metade dos países da UE resiste em aceitar a perda de diretorias executivas do FMI, mas o prazo está se esgotando.

Alguém vai ter que largar o osso.

Enquanto isso, a carroça continuará a esmagar o povo grego, a menos que...



[i] Economista, Professora substituta do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com).

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Inimigo sem nome e sem rosto

Semana de 13 a 19 de fevereiro de 2012

Nelson Rosas Ribeiro[i]

Depois de ter declarado que “Meu inimigo é o sistema financeiro”, François Holande, candidato pelo partido socialista ao governo da França, e um dos favoritos nas pesquisas, definiu-o como “inimigo sem nome e sem rosto”. Curiosamente o atual presidente Sarkozy (aquele que faz parelha com Angela Merkel da Alemanha, formando o casal Merkozy) ataca igualmente o sistema financeiro e os bancos prometendo medidas de controle. O clamor do tipo “ocupa Wall Street” espalha-se pelo mundo e preocupa os políticos que têm de enfrentar eleições em tempos próximos. Imerso neste ambiente hostil, os bancos afogam-se em suas próprias dificuldades, fruto das ações especulativas em que se envolveram. Só a situação da Grécia provocou baixas contábeis de 5,4 bilhões de euros, nos quatro maiores bancos franceses, BNP Paribas, Société Génerérale, Crédit Agricole e Groupe BPCE. E, desta vez, o governo francês tem dificuldades de ajudá-los, pois já carrega o compromisso de suas próprias dívidas que atingem 1,69 trilhões de euros, 85% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Não é só a França que está em dificuldades. Segundo dados da Eurostat (agência de estatísticas européia), o PIB do bloco encolheu 0,3%, no quarto trimestre de 2011, em relação ao terceiro trimestre, sendo a primeira contração observada desde 2009. Há a esperança de que se consiga evitar a chamada “recessão técnica”, mas, para alguns analistas, ela já começou.

Nos 17 países da zona do euro, a produção industrial caiu 1,1%, em dezembro, terceira queda em quatro meses e, no quarto trimestre, a produção caiu 1,8%. Alguns países tiveram, nesse trimestre, quedas acentuadas, como a Grécia (7%) e Portugal (2,7%). Mesmo para a Alemanha, carro chefe do bloco, a OCDE espera um crescimento de apenas 0,5%. A comissão européia aponta que dentro do grupo, 12 países estão vulneráveis entre os quais estão incluídos Itália, França, Finlândia, Suécia, Reino Unido, Dinamarca, etc.

Como vemos a conjuntura de crise se mantém e mesmo um caso menor, como o grego, não encontra solução. Apesar de todos os protestos e pancadaria nas ruas do país, o parlamento grego aprovou um pacote de austeridade com um corte de 3,3 bilhões de euros. Mas, isto parece insuficiente, pois se teme que o partido que vença as eleições próximas, não respeite os acordos que condicionam a “ajuda”.

Todos sabem que as medidas restritivas dificultam a recuperação de qualquer economia. Apesar disso, as soluções propostas vão nesta direção. Sempre se recomendam demissões de funcionários públicos, redução nos salários, corte nas pensões, subsídios e programas sociais, aumento das idades para aposentadorias, corte nos gastos públicos e no crédito, ou seja, os trabalhadores devem pagar as contas da ganância dos bancos, das irresponsabilidades dos governos e do luxo dos empresários. A Alemanha é citada como exemplo pela seriedade de seus governantes e pela disciplina de seus trabalhadores que aceitaram salários mais baixos, jornadas de trabalho mais longas, etc. Afirma-se que o padrão de vida dos trabalhadores europeus ficou caro demais para ser mantido. É preciso nivelar por baixo para ser competitivo. Que os trabalhadores se prepararem para duros combates e muitos sofrimentos.

E enquanto economistas, políticos e outros intelectuais divertem-se com discussões bizantinas sobre a relação entre Estado e Mercado, os capitalistas utilizam-se dos dois quando lhes é conveniente. Quando se ganha dinheiro, viva o mercado. Quando se perde dinheiro, que venha o Estado ressarcir os prejuízos e encher os cofres.

Nestas águas revoltas, a duras penas, a economia brasileira ainda continua navegando, se bem que tendo de refazer suas contas. Os 5% de crescimento do PIB previstos pelo ministro Guido Mantega, para 2011, foram reduzidos para 4% e 3,5%. Mas o BC admite agora que ficará apenas em parcos 2,72%. Para 2012 o Ministério da Fazenda já se apressou em corrigir sua previsão anterior de 5% para 4,5%.

Em ano de eleições, em uma conjuntura internacional hostil, o governo Dilma enfrentará grandes dificuldades.

Vamos aguardar as medidas que serão tomadas.



[i] Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).