quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Economia: uma questão de confiança



Semana de 02 a 08 de setembro de 2013


Nelson Rosas Ribeiro[i]



Reuniu-se o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC) e, como todos esperavam, elevou a taxa de juros de referência (Selic), que agora passou a 9% ao ano. A justificativa foi a mesma: a ameaça da inflação que continua “resiliente”.
O BC pensa que, assumindo uma posição mais dura, voltará a adquirir a “confiança” dos agentes econômicos, pois, a teimosia da inflação se deve a uma questão subjetiva, às expectativas decorrentes da falta de confiança.
Em abril, o BC elevou em 0,25% a taxa, mas a credibilidade não aumentou: a inflação continuou. O BC passou a aprovar aumentos de 0,5% por reunião e, ao que parece, de nada tem adiantado, pois, agora, as expectativas da inflação passaram de 5,56% para 6,12%, segundo o Boletim Focus do próprio BC.
Mas não é só o BC que está desacreditado. A política fiscal do governo também. Ninguém acredita que será mantido o percentual de 2,3% do PIB para o superávit primário, sacrifício considerado necessário para pacificar o mercado. Apesar de tudo, este bajulado mercado anda furioso com o Copom, agora por conta dos termos brandos (dovish) com que alguns problemas foram tratados na ata divulgada. Por exemplo, a afirmação de que “a política fiscal caminha para a neutralidade”. Mesmo com o juramento do BC de continuar subindo a Selic ao ritmo de 0,5% o mercado anda trombudo.
E não fica por aí. A política cambial também não merece crédito. Ninguém sabe quanto estará o dólar no dia de amanhã. Segundo os analistas toda esta tragédia é fruto de um “desastroso gerenciamento das expectativas”. Tudo se resume a uma questão de expectativas, de credibilidade.
Vejam os leitores, o tamanho do subjetivismo dos comentaristas e analistas econômicos. Todos os problemas que abalam a humanidade são resultado do sentimento otimista ou pessimista das pessoas. A realidade objetiva não existe. Tudo se move graças aos sentimentos, aspirações, sensações.
Podemos colocar boa parte da culpa por este estado de coisas nos economistas com suas teorias subjetivas carregadas de ideologia, que os levam a crer que economista engana capitalista. Esquecem a sábia lição de Keynes sobre o “instinto selvagem” que orienta as decisões dos empresários, ou a de Marx quando considera que os capitalistas são personificadores do capital e que agem inconscientemente sob seu comando.
A realidade é bem outra. É ela que cria as perspectivas. É o movimento objetivo das forças econômicas que provocam o surgimento das ideias na cabeça dos homens.
As dificuldades que abalam a economia e o governo Dilma baseiam-se em fatores objetivos.
Em primeiro lugar o início da recuperação da economia mundial, particularmente dos EUA está criando uma reordenamento dos fluxos de capitais rumo aos países desenvolvidos. A hora do dinheiro fácil para os emergentes passou e quem apostou na especulação financeira está quebrando a cara.
Em segundo lugar o descontrole sobre a inflação que, ao contrário do que a ideologia econômica dominante pensa, nada tem a ver com a lei da oferta e da procura, ou melhor, com o excesso de demanda. Este diagnóstico furado leva ao uso do remédio do juro objetivando reprimir a demanda. Não se lembram que, com juros altos, ninguém pede empréstimos para consumir ou investir. Deste modo, sem investimentos reduz-se a oferta piorando a situação de desequilíbrio. E enquanto servem ao capital financeiro enchendo o bolso dos banqueiros esquecem três grandes forças geradoras do fenômeno. Em primeiro lugar os preços externos das commodities que, como a abertura da economia afetam a maior parte da produção nacional. Em segundo lugar a existência dos monopólios dentro do país que manipulam os preços reajustando suas margens de lucro sempre que o desejam. E em terceiro lugar os preços administrados através dos quais o governo garante boa remuneração às empresas concessionárias sem preocupação de novos investimentos. Os juros não afetam nenhuma dessas fontes apenas esmagam a produção nacional e privilegiam a especulação financeira, o que ocorre neste momento. Com efeito, a produção industrial caiu 2% em julho, em relação a junho e há dados sobre a desaceleração no terceiro trimestre em relação ao segundo. A confiança da indústria já chegou ao pior nível desde 2009.
Corremos o risco de caminhar para o pior dos mundos: inflação com estagnação, ou seja, ela estaria de volta, a estagflação.


[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Os dados oficiais do 2º trimestre de 2013



Semana de 26 de agosto a 01 de setembro de 2013


Lucas Milanez de Lima Almeida[i]




            Foram divulgados os tão aguardados dados trimestrais das Contas Nacionais (sistema que registra e mensura as principais variáveis econômicas do país). Governo e “mercado”, que travaram uma “guerra labial” nas últimas semanas, agora podem apontar os dedos uns para os outros. O cenário era o seguinte: segundo a média das estimativas feitas pelo “mercado”, a economia cresceria 1% do 1º para o 2º trimestre de 2013. A previsão mais otimista era da LCA Consultores, com 1,3%, sendo as mais pessimistas as do Banco Indusval & Partners e Tendências Consultoria, ambas com previsões de 0,7%. Para o Governo as estimativas não eram muito diferentes. Segundo a equipe econômica do Planalto Central, o valor estaria entre 0,7% e 1,1%.
            Os números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística surpreenderam a todos. Em relação aos três primeiros meses de 2013, o crescimento do PIB brasileiro, de abril a junho, foi de 1,5%. Dentre as principais economias do mundo, o país só ficou atrás da China, que cresceu 1,7% na mesma comparação.
            Segundo a origem da produção, o setor que mais cresceu foi o agropecuário, com 3,9%, graças às colheitas recordes que o país vem tendo desde o começo do ano. Em segundo lugar, veio a indústria, que elevou sua produção em 2%. Tal número, porém, é questionável, pois este crescimento foi registrado sobre o decrescimento de 0,2% nos três primeiros meses de 2013. O que enfraquece ainda mais esta cifra é o fato de que, em 2012, a indústria já havia se retraído 0,8%. Dentro do setor, quem mais cresceu foi a construção civil (3,8%), a indústria de transformação (1,7%) e a extrativa mineral (1,0%). Por fim, os serviços foram os que menos contribuíram para o crescimento do PIB, registrando elevação total de apenas 0,8%. Os destaques positivos do setor foram o comércio (1,7%), a intermediação financeira e seguros (1,1%) e os transportes (1,0%). Na outra ponta, temos a administração, saúde e educação públicas, com uma elevação de apenas 0,1%.
            Sob o ponto de vista do destino do produto, quem mais contribuiu no 2º trimestre, em relação ao primeiro, foram as exportações, com crescimento 6,9%. Porém, tal como a indústria, no 1º trimestre as exportações caíram os mesmo 6,9%. Ou seja, o crescimento foi registrado sobre um valor que já tinha apresentado uma retração anterior. Em compensação, a entrada de produtos estrangeiros desacelerou. No 1º trimestre as importações haviam crescido 5,7%, enquanto no segundo este valor foi de apenas 0,6%. Um dos fatores que contribuiu para estes números foi o câmbio que, em média, cresceu 3,8% no período. A cotação mínima dos seis primeiros meses chegou a R$ 1,95 por dólar, em março, e a máxima foi registrada em junho (R$ 2,26).
            Ainda do ponto de vista da demanda, o consumo das famílias e do governo cresceram pífios 0,3 e 0,5%, respectivamente, sobre os três meses anteriores. Ambos já haviam apresentado uma estabilidade no 1º trimestre de 2013, quando não se alteraram, em relação ao fim de 2012. Resta-nos agora analisar os investimentos, representados pela formação bruta de capital fixo (FBCF).
            Com a aceleração da produção industrial, a desaceleração das importações e o fraco crescimento do consumo, boa parte desta produção foi absorvida pelos investimentos e pelos estoques. O crescimento da FBCF, no 2º trimestre do ano, foi de 3,6%, ante um crescimento de 4,7% no trimestre anterior. Com isto, a relação entre os investimentos e o PIB saltou de 17,9% para 18,6%. Já os estoques quase dobraram no mesmo período.
            Se a economia brasileira tivesse combustível para manter-se aquecida desta maneira, ao fim do ano poderíamos ter um crescimento total em torno de 5%. Do lado da agricultura os bons números devem se manter, com expectativa de crescimento de 14,7% em relação a todo o ano de 2012. Porém, o balde de água fria já foi jogado. Em julho, a indústria brasileira decresceu 2%, em relação ao mês anterior, 1,95% em relação ao início do 2º trimestre e 1,67% em relação ao primeiro mês do ano.
            Com todos estes números, podemos, agora, arriscar um diagnóstico sobre o Brasil. Diante das taxas de crescimento dos últimos anos (2008-2012: 5,2%, -0,3%, 7,5%, 2,7%, 0,9%, respectivamente) e da expectativa de 2,1% em 2013 só uma catástrofe pode fazer o crescimento ficar abaixo do registrado em 2012.
            Podemos afirmar então que, se esta tendência for mantida, a economia estará saindo lentamente do fundo do poço.


[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Câmbio, inflação e crise



Semana de 19 a 25 de agosto de 2013


Rosângela Palhano Ramalho [i]



            Caro leitor. Ao iniciar esta análise, repetiremos o discurso de que tudo se mantém como está. A recuperação das maiores economias, Europa e Estados Unidos, continuam rastejantes, enquanto que as economias emergentes preocupam. A indecisão do Federal Reserve (Fed), BC americano, em conter o afrouxamento monetário, continua causando estragos. A migração de retorno chamada de “tsunami monetário” acabou por acentuar os problemas dos emergentes.
            Índia e Brasil, por exemplo, têm sofrido com as saídas de capital. A rúpia, moeda indiana, em agosto desvalorizou-se 4,21%. Mesmo assim, o país descartou o uso de mais medidas para conter a saída de recursos e afirmou que as reservas de US$ 279 bilhões serão suficientes para impedir a desvalorização. Entre os emergentes, o nosso real, foi a moeda que mais se desvalorizou, em agosto, 5,97%. O governo, que já admite uma alta da inflação, teme que os resultados do câmbio contribuam para o aumento dos preços.
            O diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton, ao comentar o índice de inflação de julho, em que o IPCA fechou com uma pequena alta de 0,03%, o menor valor mensal desde 2010, apressou-se em declarar que um valor tão pequeno não se repetirá até o fim do ano. Ou seja, a queda de preços dos transportes e dos alimentos, verificadas mês passado, não mais contribuirá para a redução do índice geral. Em sentido contrário, o mercado cambial poderá contribuir para as próximas altas. Com efeito, já está sendo registrada uma série de declarações da indústria confirmando o aumento de preços no setor, justificado pela elevação dos preços dos insumos que afetam os custos de produção.
            Boas notícias só para aqueles que sugam e vivem dos recursos oriundos do mercado financeiro e que acabam ditando os rumos da política econômica. Com a alta do dólar, as perspectivas de inflação sobem, consequentemente os juros futuros também se elevam e o pessimismo que é exagerado, segundo Delfim Netto, se concretiza.
            Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, também concorda que há um exagero de pessimismo em relação aos mercados de juros e câmbio, mas tratou de fazer as vontades do “mercado” declarando que a “adequada condução da política monetária contribui para mitigar riscos para a inflação, a exemplo dos oriundos da depreciação cambial”. Isto significa que a atual política de elevação dos juros será mantida. A declaração deve ter soado como música para os ouvidos do sistema financeiro!
            Resta então, à equipe econômica, render-se ao “mercado” e lançar seu arsenal para tentar conter a desvalorização do real. O Banco Central já fez intensas intervenções no câmbio, vendendo dólares no mercado futuro para “acalmar” os “investidores”. Guido Mantega já admitiu que, se for preciso, o Banco Central injetará um valor maior que os US$ 60 bilhões já lançados no mercado.
            Enquanto finalizo esta análise leio um discurso de Mantega que classifica o momento atual como uma “minicrise”. Uma “minicrise”, uma pequena “turbulência” que não pode ser comparada aos momentos vividos em 2011 e 2012. O fato é que o voo da economia brasileira há alguns anos, está muito baixo e as turbulências cada vez mais frequentes. Enfrentar a “turbulência” atual está saindo muito custoso para o governo. De um lado, há a pressão do sistema financeiro por juros altos; do outro, a apatia dos empresários em relação a retomada dos investimentos. E agora, o que fazer?
            Se por um lado, o governo garante os rendimentos do sistema financeiro, por outro, tem que admitir que a economia real não crescerá tanto este ano. O Ministério da Fazenda, “repensou” sua estimativa de crescimento para o PIB de 2013. A revisão derrubará o PIB de 3% para 2,5%, enquanto que a previsão do Boletim Focus já se encontra em 2,2%.
            Se dependermos, para crescer, das obras rodoviárias do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), teremos que esperar mais sete anos. As nove principais obras já apresentam atrasos que variam de dois a sete anos, se for considerado o tempo decorrente entre a previsão da conclusão no PAC I e o atual.
            Mas a eleição acontecerá no próximo ano, e o governo não pode esperar. Vamos aguardar o próximo arsenal, se ainda existir...


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Recuperação rastejante



Semana de 15 a 24 de julho de 2013


Nelson Rosas Ribeiro[i]



As tendências apontadas na nossa Análise da semana passada continuam a evoluir: na economia mundial, para melhor, e na economia nacional, para pior.
Os sinais de recuperação na União Europeia (UE), embora ainda débeis, continuam a se intensificar. No segundo trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) da zona expandiu-se 0,3%, em relação ao primeiro e, em julho, espera-se a continuação da expansão. Há informações de que a indústria voltou a crescer na Alemanha, Itália, França e Espanha. Também no segundo trimestre, o PIB cresceu 0,7% na Alemanha, e 0,5% na França. Em Portugal, o crescimento foi de 1,1%, primeiro crescimento desde 2010. Aumenta, no entanto, o temor de que este crescimento se dê sem a redução das taxas de desemprego.
A economia dos EUA também continua a apresentar melhoras, embora em níveis “modestos”. Crescem os receios de que o Federal Reserve (Fed), banco central americano, inicie a redução dos seus estímulos econômicos e aborte o processo de recuperação ainda insipiente.
Já a situação do Japão não é tão animadora. O crescimento anualizado do PIB, que era estimado em 3,6%, foi de 2,6%, no segundo trimestre. Pelo sexto trimestre consecutivo as empresas continuam a cortar os investimentos.
Entre os emergentes, a Índia encontra-se em dificuldades com a desvalorização da sua moeda (rúpia) frente ao dólar, a saída de dólares do país e o aumento do déficit fiscal para 4,8% do PIB.
A situação no Brasil não é das melhores. As ameaças do Fed têm feito o dólar disparar ultrapassando a barreira de R$2,40, apesar da intervenção do Banco Central (BC), com leilões da moeda americana, para conter a “flutuação suja”. Além disso, a inflação teima em crescer apesar das declarações da “Presidenta” de que mantém o controle da situação. O resultado é que o BC, na próxima reunião, já esgrime a espada dos 0,5% de aumento da Selic, permanecendo na sua política suicida de matar o doente para acabar com a enfermidade, mantendo-se fiel no receituário da ideologia econômica dominante (um viva para os bancos e as instituições financeiras).
Os empresários, cabisbaixos, consideram que a produção estabilizou-se em julho e que seguirá uma trajetória lenta de recuperação, apesar das quedas dos índices de confianças deles próprios e dos consumidores, em julho. No entanto, os primeiros dados sobre o terceiro trimestre apontam para uma desaceleração. A produção de veículos, entre junho e julho, caiu 6,8%; o fluxo de veículos pesados nas estradas recuou 0,5% e a expedição de papelão ondulado cresceu apenas 0,8%, não recuperando a queda de 1,8% sobre junho.
O Boletim Focus do BC, que sonda a opinião de cem instituições financeiras e consultores, mostra que também as projeções para 2014 estão se deteriorando. As estimativas para o PIB deste ano caíram de 3,5% para 2,5%, com novas previsões de quedas. Há quem reduza este número para 1%. Em relação a 2013, as estimativas já caíram para 1,7%. Fundamentando este “pessimismo”, a indústria paulista informou pretender fechar 5,5 mil vagas, em junho e julho, reduzindo 0,36% seus postos de trabalho e é estimada a eliminação de mais 38 mil postos de trabalho até o fim do ano. Neste ambiente, a notícia do enterro do grupo EBX do empresário Eike Batista contribuiu para consolidar o pessimismo. Parece que o grupo chega ao fim. Tomando como referência as cotações máximas atingidas pelas ações das empresas do grupo, a queda geral foi de 90% do valor. Para dar exemplos: as ações da OGX (petróleo) caíram de R$23,27 para R$0,39; as da OSX (indústria naval) caíram de R$29,48 para R$1,03 e as da MMX (mineradora), de R$20,76, para R$1,1.
Se para os empresários a situação não é confortável, para os trabalhadores é ainda pior. O Ministério Público do Trabalho está processando a Samsung de Manaus pedindo uma indenização de R$250 milhões, acusando a empresa de violação da lei, pois, os trabalhadores, além de trabalharem em pé, têm uma jornada de 10 horas com direito a dois intervalos de 10 minutos e executando 80 a 90 movimentos repetitivos por minuto, em condições piores do que na China.
            Êta capitalismo bão!


[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).