quarta-feira, 9 de abril de 2014

Mais 0,25% de juros!



Semana de 29 de março a 06 de abril de 2014

Rosângela Palhano Ramalho [i]

            Caro leitor. Obrigatoriamente temos que registrar um evento conjuntural que praticamente se tornou regra: a nova alta da taxa de juros. Novamente, o Copom, Comitê de Política Monetária do Banco Central, em decisão unânime, resolveu aumentar a taxa 10,75% para 11% ao ano, sem viés. Os argumentos são os mesmos: a inflação está “resiliente”, “resistente”. Além disso, aquilo que inicialmente foi considerado como choque de preço dos alimentos, segundo o Banco pode não sê-lo e o seu comportamento deve ser monitorado.
            A “forma” de comunicação do Banco Central foi novamente elogiada, afinal a frase “vai monitorar a evolução do cenário”, dá a indicação de que a autoridade monetária vai manter o arrocho, se o problema persistir.
            Vamos aos fatos. A exigida sintonia de comunicação entre o Banco Central e o “mercado” serve como já argumentamos, para garantir os ganhos do mercado financeiro. Veja-se, por exemplo, a satisfação dos especuladores quando Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, em seu discurso no Senado deixou praticamente garantido o aumento dos juros. Segundo o Valor Econômico a instituição “... deu sinal verde para que analistas retardatários corrigissem suas projeções de inflação e juros e corrigiu o curso de uma expectativa...”.
            O presidente da Contraf-CUT (Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro), tem razão quando diz que “O novo aumento da Selic representa, na realidade, outra capitulação do Copom diante do terrorismo do mercado financeiro, o único que ganha rios de dinheiro com a subida dos juros, enquanto todos os demais setores da sociedade perdem”.
            A decisão mais uma vez, desagradou o setor produtivo. A CNI (Confederação Nacional da Indústria) declarou que os custos do setor novamente foram elevados e criticou o governo por usar apenas um remédio para a inflação, quando a mesma poderia ser combatida de outras formas.
            Toda esta argumentação é conhecida por um mero estudante iniciante em Economia: o aumento dos juros freia os investimentos e aumenta os ganhos do setor financeiro. O impacto vai ser sentido. Segundo o número mais atual do Boletim Focus do próprio Banco Central, o crescimento da economia este ano será de 1,7%. Mas a grande maioria dos economistas faz de conta que esqueceu este ensinamento da teoria econômica, ao defender a medida.
            A Fecomercio-PB também repudiou o aumento dos juros. Baseada no estudo “Síntese da Conjuntura”, divulgado pela Confederação Nacional do Comércio, a Federação declarou que a medida é desnecessária, pois, há dez anos a inflação está na casa dos 6%.
            De fato, a média da inflação dos últimos 10 anos, é de exatamente 6,45%. Neste período, a meta inflacionária só foi cumprida em três anos (2006, 2007 e 2009), fato que mostra a ineficiência dos juros altos em combater a inflação. Outro dado que pode confirmar esta argumentação é o seguinte: ao observar a série dos resultados da inflação dos últimos dez anos e compará-la com a série dos juros, constata-se que os anos em que vigoraram as maiores taxas de inflação, foram exatamente aqueles que fecharam com as maiores taxas de juros, a exemplo de 2005 quando os juros eram de 18% e a inflação fechou em 5,7%.
            Por mais que se tente justificar esta “resiliência inflacionária”, através da defasagem da política monetária e outros fatores, a realidade mostra que o arrocho é ineficiente, e ninguém da equipe econômica sequer questiona o prognóstico da inflação, o seu caráter e as suas causas e mesmo assim continuam a remediá-la da mesma forma.
            O choque de realidade virá no final do ano. Mais uma vez um pífio crescimento se concretizará, em virtude da conjugação da crise econômica mundial, que continua a se arrastar, com a política econômica interna adotada pelo governo do PT.
            Para aqueles que insistem em ignorar a realidade, finalizo com um argumento da Fecomercio-PB: “...a elevação da taxa de juros serve para frear a demanda agregada, quando há excesso de consumo ou investimentos e esse não é o caso do Brasil na presente conjuntura. Portanto, o Banco Central está vendo um aquecimento econômico onde não existe”.
            Se o diagnóstico da enfermidade está errado, a medicação receitada certamente também estará. Simples assim.


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Schinellada na presidenta



Semana de 24 a 30 de março de 2014

Nelson Rosas Ribeiro[i]

A presidenta Dilma está na berlinda. A semana foi carregada e promete mais. A primeira schinellada veio da Standard & Poor’s, a temida agência de rating (avaliadora de riscos). Juntamente com as outras duas, a Moody’s e a Fitch estas agências arvoram-se em avaliadoras da credibilidade dos países e empresas e da capacidade que eles têm em saldar seus compromissos financeiros. Há duas semanas, noticiamos a visita da Lisa Schinela, digo, Schineller, inspetora de quarteirão da Standard & Poor’s, que nos visitou para fazer uma devassa nas contas do Brasil. Toda a subserviência dos nossos ministros e das autoridades do Banco Central (BC) não convenceu a senhora. A agência rebaixou a classificação do Brasil de BBB para BBB-, o último nível exigido para conceder o tão desejado “grau de investimento”. As razões alegadas foram: perspectivas de crescimento reduzido nos próximos anos, descontrole da política fiscal com grandes despesas agravadas pelo ano de eleições, baixo superávit primário e suspeita de que a meta de 1,9% não seja atingida, descontrole da inflação agravado pela crise no setor elétrico, aumento da vulnerabilidade externa. Resumindo: perda da credibilidade do governo e de sua política econômica com o agravamento da envolvente internacional adversa. Aproveitando o embalo a Standard & Poor’s rebaixou igualmente de BBB para BBB- as notas de 13 entidades bancárias entre as quais o Banco do Brasil, o Itaú Unibanco, o HSBC Brasil, o Bradesco, o Santander Brasil, o Banco Citibank, o Banco do Nordeste e a Sul América Seguros.
As consequências foram imediatas: instabilidade interna, oscilação na bolsa, elevação dos juros, desconfiança dos investidores, mau humor do mercado, etc.
Outra chinelada na presidenta foi aplicada pela pesquisa CNI/Ibope divulgada na semana passada. 36% dos entrevistados consideraram o governo bom ou ótimo, com uma queda de sete pontos em relação a novembro de 2013. A rejeição ao governo passou de 20%, também em novembro, para 27%. Esta derrota do governo animou os investidores diante do aumento da possibilidade de vitória das oposições ou mesmo do crescimento do movimento “volta Lula”. As condições para a manutenção da candidatura Dilma estão se deteriorando, pois se fala que, ao entrar na faixa de 30% de aprovação, a presidente atingiu a zona de tolerância para sua permanência no páreo.
A situação torna-se mais grave porque não se espera nenhum refresco da economia mundial ainda em estágio de letargia. Na França, os altos impostos e a permanência do desemprego levaram à derrota do governo do Sr Hollande nas eleições locais. A zona do euro continua a preocupar a tal ponto que o conservador Jens Weidmann, presidente do Bundesbank (banco alemão) admitiu a possibilidade do BCE adotar uma política de afrouxamento monetário (Quantitative easing – QE), para estimular a recuperação. Na China a preocupação do governo com a desaceleração levou ao aumento dos gastos em infraestrutura e do crédito, na tentativa de obter 7,2% de crescimento do PIB.
Com a situação interna se deteriorando o governo do PT encontra-se em dificuldades. A economia está em desaceleração enquanto a inflação acelera (será a stagflação?). No horizonte surge a crise energética, os preços das commodities estão em baixa, os escândalos na Petrobrás respingam na Dilma e acirram os ânimos no congresso, estremecendo o bloco de sustentação.
Ora, todos sabem, e nesta coluna muitas vezes temos repetido, que o movimento da economia é cíclico. “Sempre há ciclo de expansão que vai desembocar em crise, e depois haverá período de recessão. Economistas não conseguem cancelar essa lei capitalista inexorável. Quando a economia está em sua expansão, e quando o ciclo é de euforia, como em 2007, economistas esquecem da crise. No início de 2008, o FMI disse que a economia crescia solidamente. Isso de fato não se verificou”. Estas afirmações entre aspas não são nossas, mas do ministro Mantega, em uma aula magna que proferiu na Escola de Economia de São Paulo da FGV no dia 28 passado.
Finalmente Mantega, para justificar o aperto em que se encontra, lembrou-se de uma velha lição dos tempos em que era economista. Atirou a culpa pela difícil situação da economia sobre “inexorável” lei da crise, que não é da sua responsabilidade. Mas, como ele observa que o processo de recuperação está iniciando, ou seja, estamos entrando na fase de reanimação do ciclo econômico, na mesma conferência, ele apresentou a estimativa de que nos próximos oito anos a taxa de crescimento médio do PIB será de 4%. Embora otimista esta taxa é viável, no entanto, o nosso ministro agora esqueceu as lições de economia, pois a fase de reanimação do ciclo não dura mais do que três anos.


[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).

terça-feira, 25 de março de 2014

O abismo econômico e os juros do Brasil



Semana de 17 a 23 de março de 2014


Rosângela Palhano Ramalho [i]

            Caro leitor. A economia brasileira “não está à beira do abismo”. Ufa! É o que diz Paul Krugman, economista renomado em visita ao Brasil. O país que ficou de joelhos com a visita de Lisa Schineller (quem?) vai sobreviver à crise, assim como todos os outros. Mesmo que as agências estrangeiras de rating (aquelas que avaliam os riscos dos países) rebaixem a nota do Brasil, o mundo não vai acabar por causa disso e um acontecimento é certo: sobreviveremos a elas. Dentre os emergentes, segundo Krugman, o foco não deveria estar no Brasil já que, a China, é quem está em permanente desequilíbrio. Se o gigante chinês tombar, teremos problemas, já que exportamos para lá commodities e o peso deste item é duas vezes maior que o peso das exportações de manufaturados. Mas, o leitor assíduo da nossa análise já sabia disso.
            Claro que o governo brasileiro pode amenizar os efeitos da crise ou simplesmente agravá-los. Vimos, acompanhando a gestão de Dilma e testemunhamos todos os esforços possíveis e inimagináveis que foram feitos para fazer repetir o PIBão de 2010. Mas, com a crise mundial e a corrida ascendente dos juros, tem sido impossível repetir o feito.
            Nesse clima, a grande “novidade” da semana concentrou-se nas especulações sobre a próxima decisão do Copom. Bastou o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, ir à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE) para que o “mercado” ficasse em polvorosa. A autoridade monetária logo anunciou a escalada do preço dos alimentos. Esta alta, provocada pela seca, foi detectada através da divulgação da segunda prévia do IGP-M de março que registrou inflação de 1,41%, puxada pelos preços dos alimentos no atacado e também pelo IPC da Fipe, que, na segunda quadrissemana deste mês, subiu 0,68%, com os alimentos respondendo pela metade da variação.
            Sobre esta questão, foram estas as palavras de Tombini: “Em princípio, trata-se de um choque temporário e que tende a se reverter nos próximos meses. Mesmo assim, a política monetária deve atuar de modo a garantir que os efeitos desse choque se circunscrevam ao curto prazo”. Os analistas do português e das mensagens subliminares do Banco Central, logo se puseram a “decifrar” o comunicado, desta vez, oral, da autoridade monetária. Conclusão: fica em aberto o fim do ciclo de aperto monetário. Outra frase dita reforça esta conclusão: “em momentos como o atual, a política monetária deve se manter especialmente vigilante, de modo a minimizar riscos de que níveis elevados de inflação persistam no horizonte relevante para a política monetária”.
            Os termos atuação e vigilância deram o tom do discurso de Tombini. O “mercado” feliz comemora a provável elevação dos juros e elogia a independência do Banco Central. Antes mesmo do término da fala de Tombini, as perspectivas sobre o juro futuro começaram a subir. Prestes a comemorar um ano, o arrocho monetário deve continuar e a expectativa é de uma nova elevação dos juros em 0,25 pontos percentual, o que nos manterá no pódio de economia com os maiores juros do mundo e local mais atrativo para especular.
            O curioso é que, mesmo considerando a elevação do preço dos alimentos, que seria temporária, fato que logicamente provocaria uma inflação de oferta, o Banco Central continuará a usar o aumento da taxa de juros como remédio para evitar que esta alta se dissemine para o restante da economia. O purgante usado para combater a inflação de demanda, também combate a de oferta embora comprometa seriamente o crescimento, já débil, da economia brasileira.
            Tombini ainda frisou que a política de juros altos tem efeitos retardados e cumulativos, por esta razão, a resposta dos preços ainda não aconteceu. Esta observação contradiz o novo aperto. Parece-nos mais sensato que o Banco Central espere a manifestação dos efeitos antes de divulgar uma nova decisão. E se não há nada que nos condene por termos uma inflação fora do centro da meta, segundo o próprio Tombini, a decisão torna-se ainda mais insensata.
            Mas lembre, caro leitor, que a instituição está sob os olhares inquisidores do “mercado” e de um batalhão de Lisa’s. E se estes forem contrariados, o discurso inflamado de que o Banco Central não é independente e não é claro em seus comunicados, retorna.
            E o crescimento? Que crescimento?


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)

quarta-feira, 19 de março de 2014

Um país de joelhos



Semana de 10 a 16 de março de 2014

Nelson Rosas Ribeiro[i]

Ela vem aí! Tremei, senhores! Preparei vossas bundas que Lisa acaba de chegar e com a schinella na mão. È visível o nervosismo geral. Correm esbaforidos ministros, secretários, diretores, funcionários (até o encarregado do cafezinho). O governo está em polvorosa. Mas, quem será a Lisa? Garanto que não é a presidenta dos EUA, nem a secretária geral da ONU, nem a generala comandante das forças atômicas da OTAN, nem uma ET que aterrou distraída. Então por que ela põe um país de joelhos?
Por mais inacreditável que pareça, e para vergonha nossa, Lisa Schineller é uma reles economista da agência de rating Standard & Poor’s que vem “dissecar as contas do Tesouro” e “conversar” com as autoridades locais ameaçando rebaixar a classificação do Brasil, de BBB e retirar o “grau de investimento” que nos concederam desde 2008. Como os leitores sabem, existem três grandes agências que fazem a classificação do risco que os países apresentam para pagar seus compromissos: a Fitch (que já enviou seus fiscais) a Moody’s (que os enviará em abril) e a Standard & Poor’s que se encontra em pleno processo de fiscalização comandada pela temida Lisa. Aos pés dessa senhora derrete-se o ministro Mantega e toda a sua equipe prestando contas do dever de casa realizado. O Banco Central também é chamado à ordem. Seu presidente, o Tombini, Insaciável, Schineller continua seu périplo por Brasília, São Paulo e Rio ouvindo economistas, banqueiros, executivos, diretores de empresas e do setor financeiro. Nem a Petrobrás e o BNDES escapam das schinelladas da madame.
Esta é uma demonstração do poder do capital financeiro. É preciso dar garantias aos especuladores que todos continuarão pagando os juros a fim de obter novas esmolas. Temos um país vergonhosamente de joelhos ante o novo deus do planeta. Estamos todos pagando as penitências e prometendo um bom comportamento futuro para que, uma empresa de idoneidade duvidosa, não rebaixe a classificação do país.
Enquanto oramos e trememos o velho mundo continua a sua marcha. Nos Estados Unidos, o novo vice-presidente do Federal Reserve (Fed) banco central americano, Stanley Fischer, recomenda a manutenção de uma política monetária expansionista para não prejudicar a claudicante recuperação. No Japão, com medo da recente elevação do IVA (imposto sobre valor acrescentado), de 5% para 8%, o BC manteve a compra de ativos no valor de 60 a 70 bilhões de ienes, apesar do volume em carteira já ultrapassar um trilhão de ienes. Na Itália, o novo primeiro ministro Matteo Renzi sinaliza para o fim da austeridade, provocando irritação nas autoridades da Comissão Europeia que exigem o cumprimento dos compromissos assumidos. Na China, a situação continua a agravar-se com a desaceleração de todos os setores da economia nos dois primeiros meses do ano e o primeiro caso de insolvência de uma empresa incapaz de pagar US$ 14,7 milhões de juros de empréstimos contraídos. Suspeita-se que este será o primeiro de uma sucessão de outros estouros pois as dívidas das empresas e governos locais ultrapassam centenas de bilhões de dólares. As consequências espalham-se pelos mercados da Ásia com a venda precipitada de ações das empresas chinesas e queda nos preços das commodities que o país importa.
Resumindo tudo isto, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE) divulgou sua previsão sobre a desaceleração das economias dos emergentes e a expansão moderada da economia mundial. O Banco Internacional de Compensações (BIS) alertou para o perigo da elevação das taxas de juros nos emergentes (conselho que nosso BC não ouviu) ao mesmo tempo em que chamou a atenção para o montante global dos títulos de dívidas que já ultrapassa os US$ 100 trilhões, 42% maior que em 2007. Cálculos feitos pelo Instituto Internacional de Finanças (IIF) mostram que a dívida total do mundo, incluindo os setores públicos e privados, chega a US$ 223 trilhões, ou seja, 313% do PIB mundial.
No Brasil a produção industrial continua a rastejar e, em ano eleitoral, a presidente Dilma vem sendo pressionada a fazer uma política econômica de austeridade.
E no meio disto tudo, e das chantagens políticas, ela precisa ganhar as eleições!


[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).