sexta-feira, 1 de abril de 2016
quarta-feira, 30 de março de 2016
Impeachment e crise econômica
Semana de 21 a 27 de março de 2016
Nelson Rosas Ribeiro[i]
Para nós e nossos leitores não é nenhuma
surpresa constatar que a situação econômica continua a se deteriorar. Podemos
agora afirmar que ainda não chegamos ao fundo do poço e, como é normal, as
grandes empresas passam a sentir o peso da desaceleração e reduzir ou encerrar
as suas atividades. Citaremos apenas algumas manchetes dos noticiários para
confirmar nossa observação.
As grandes empreiteiras, diante do jejum de
obras públicas, encerram atividades e demitem trabalhadores. Só no ano passado
isto significou 175 mil vagas eliminadas, reduzindo o contingente de
trabalhadores ao menor nível desde 2008. Pedro Celestino, presidente do Clube
de Engenharia, afirmou: “Ou muda a política econômica ou a indústria de construção
pesada no país vai para o ralo”. A indústria de autopeças perdeu 18% do
faturamento no ano passado. A Petrobrás teve, em 2015, o pior prejuízo da sua
história: R$ 34,83 bilhões, causado em parte pela “baixa contábil” de R$ 48,3
bilhões, em seu balanço. As tais “baixas contábeis” atingiram não só a
Petrobrás, mas a Vale, Usiminas, Gerdau e BM&FBovespa. Todas juntas
apresentaram um montante das perdas que somou mais de R$ 90 bilhões. O mesmo
ocorreu com Grendene, Embraer, Natura, Tractebel, Senior Solution e Mills. São
bilhões de reais destruídos pela crise o que é um efeito esperado e necessário,
inerente a este fenômeno.
Entre as montadoras a Randon parou a
construção de nova fábrica em Araraquara (SP) e a produção de semirreboques
rodoviários em Guarulhos. A Mercedes-Benz suspendeu a programada operação do
segundo turno de sua fábrica de carros de luxo em Iracemápolis (SP).
No setor de eletrodomésticos e
eletroeletrônicos a situação não é mais favorável. Segundo a Associação
Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), em janeiro,
referido a janeiro de 2015, caíram as vendas nas seguintes percentagens: TVs
45%, eletroportáreis 50%, ar condicionado 58%, micro-ondas 34%, móveis e
eletrodomésticos 24,3%. A Whirlpool, fabricante das marcas Brastemp, cônsul e
Kitchen Aid, projeta uma retração de 10% nas suas atividades. A Mabe, dona das
marcas Continental e Dako, pediu falência.
A situação no comércio e nos serviços levou
ao fechamento de 104,6 mil empregos, em fevereiro. Os serviços encolheram 2,5%,
em 2015.
Em relação à economia mundial, as notícias
continuam preocupantes. O Banco Central Europeu (BCE) e os agentes econômicos
ainda consideram insuficientes as recentes medidas de “relaxamento monetário” e
redução dos juros (atualmente entre zero e -0,4). Também se considera difícil
mais flexibilização fiscal diante do exagerado endividamento. A solução
encontrada foi apelar para medidas que estimulem investimentos em pesquisa e
desenvolvimento, melhorias do “capital humano”, aumento de salários, mais
contratações e aprimoramento dos recursos humanos, melhorias no ambiente de
trabalho, assistência aos filhos dos empregados, etc. Medidas semelhantes têm
sido propostas pelo Banco Central do Japão (BoJ).
Todo este ambiente econômico adverso, que
tende a se agravar, não aplaca a ira dos agentes políticos engalfinhados em uma
luta de vida ou morte para roer os ossos do país e usufruir as benesses do
poder. Como diz o cientista político alemão Jens Borchert, da Universidade de
Frankfurt, em visita ao Brasil “A democracia brasileira está se
desintegrando.”.
Em meio a tudo isto estoura mais um
escândalo: o listão da Odebrecht. E desta vez estão arrolados mais de 200 nomes
de políticos de quase todos os partidos. O descaramento é de tal ordem que as
empreiteiras tinham constituído cartéis que tinham nomes e estatutos: “Sport
Clube Unidos Venceremos” e o “Tatu Tênis Clube”. Estava para concluir quando
explodiu a notícia do desembarque do PMDB do governo. Uma vibrante reunião com
a participação ativa de um dos mais corruptos políticos do país, o presidente
da Câmara, que, ao mesmo tempo, comanda o processo de impeachment da presidente
e impede o andamento de seu próprio processo de cassação.
É inacreditável!
[i] Professor
Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na
Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).
terça-feira, 22 de março de 2016
Por cima de queda, coice!
Semana de 14 a 20 de março de 2016
Rosângela Palhano Ramalho
[i]
Como é de conhecimento do leitor, o cenário interno
continua a deteriorar-se, tanto do ponto de vista político, quanto econômico. E
o resto do mundo, principalmente o desenvolvido, em frangalhos, tenta a todo
custo reanimar a atividade econômica. Dados recentes da Eurostat apuraram que a
produção industrial na zona do euro subiu 2,1% em janeiro. Embora seja o maior
aumento mensal desde setembro, a cautela tomou conta dos comentários, pois a
desaceleração da economia mundial é uma realidade da qual não se pode fugir.
Por isso, o Banco Central Europeu adotou mais uma rodada de afrouxamento
monetário. Nos EUA, a prudência, que sempre esteve presente nos comentários
sobre os dados da economia americana, permanece. O Departamento de Comércio
apurou que as vendas de fevereiro caíram 0,1% e a revisão dos resultados de
janeiro transformou uma alta de 0,2% deste indicador, em queda de 0,4%.
No Brasil, a retração econômica continua a
agravar-se. A indústria foi o setor que mais perdeu trabalhadores, no quarto
trimestre de 2015, comparado ao quarto trimestre de 2014. A queda da população
ocupada foi de 14,5% para 13,4% e a indústria paulista registrou o fechamento
de 12.000 postos de trabalho, em fevereiro. Segundo a Pesquisa de Nível de
Emprego do Estado de São Paulo, em 12 meses, a taxa de desemprego que era de
8,27%, entre os anos de 2014 e 2015 passou a 10,18%.
Os pedidos de recuperação judicial se estendem
agora, às empresas de tubos, conexões e forros de PVC, que foram atingidas pela
desaceleração do setor de construção civil e pela paralisação das obras do
Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A Majestic e a PVC Brazil pediram
recuperação em janeiro e, segundo a Associação Brasileira da Indústria do
Plástico (Abiplast), os efeitos já vêm sendo sentidos pela indústria desde
2015. A produção de componentes plásticos caiu 8,7%, pior resultado desde 2009
e a ociosidade média do setor alcançou 37%.
O Índice de Atividade Econômica do Banco Central
(IBC-Br) mostrou um recuo de 0,61%, em janeiro, e frustrou as expectativas dos
analistas que esperavam uma queda de 0,5%. Algumas instituições já preveem que
o PIB deste ano cairá 4,4%.
Enquanto a economia derrete, a presidente Dilma vai
perdendo com velocidade máxima, os apoios políticos antes “conquistados”. A
Confederação Nacional da Indústria (CNI), na pessoa do seu presidente Robson
Braga de Andrade, lançou na imprensa um “Comunicado à Nação”, externando
claramente o posicionamento a favor do impeachment da presidente. Sob a
argumentação de dar “...um basta a esse impasse para que o país possa retomar o
rumo”, a instituição pede punição aos que afastaram o país “...do caminho do
crescimento, provocando o aumento do desemprego, a elevação da inflação e o
fechamento de empresas.”
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
(Fiesp), que serviu almoço com filé mignon aos manifestantes da Avenida
Paulista e pôs o seu pato amarelo nas ruas, comunicou que a instituição também
apoia o impeachment da presidente. Paulo Skaf, presidente da instituição,
assumiu que fará lobby entre os parlamentares pela aprovação do impedimento no
Congresso. Críticas também partiram da Associação Comercial de São Paulo, da
Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo e da Federação do
Comércio do Estado de São Paulo.
A Bancada ruralista do Congresso Nacional,
autointitulada Frente Parlamentar da Agropecuária, também passou a defender o
impeachment. A ruralista-mor, Kátia Abreu, ministra da Agricultura, permanece
em cima do muro esperando o momento em que o seu partido, o PMDB, dará a
rasteira final na presidente.
Sem nada para mostrar em termos de negociação
política e também em termos da política econômica, a presidente Dilma Rousseff,
parece estar à espera de um milagre, depositado na figura do ex-presidente Lula
que, no momento, oscila entre estar e não estar ministro.
Como diz o nordestino: por cima de queda, coice!
[i] Professora
do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização
e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br)
Contato: rospalhano@yahoo.com.br
quinta-feira, 17 de março de 2016
Um PT suicida
Semana de 07 a 13 de março de 2016
Nelson Rosas Ribeiro[i]
A euforia na semana encerrada no dia 5
passado espalhou-se pelos “mercados”. O dólar desvalorizou-se 5,96%, atingindo
R$3,759, a bolsa subiu tendo o Índice Bovespa acumulado uma valorização de 18%,
as taxas de juros longas caíram. A euforia continuou na semana seguinte, tendo
o dólar caído para R$3,74 e o tesouro conseguido colocar no mercado US$ 1,5
bilhão em bônus com vencimento em 10 anos, com taxa de 6,125%, considerada boa.
Mas, o que causou tamanha euforia? Não foi
a situação econômica que melhorou. Tudo foi desencadeado por fatos políticos,
como a prisão do marqueteiro João Santana, a delação premiada do Delcídio
Amaral, a condução coercitiva do ex-presidente Lula que fizeram o mercado
“precificar” o aumento da possibilidade do impeachment da presidente Dilma. Se
o impeachment for aprovado no congresso, já está “precificado”, mas se o for
pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda serão feitos ajustes, dizem os
analistas.
Mas, se os especuladores apressam-se para
ganhar dinheiro, e se antecipam aos acontecimentos, os partidos de direita e os
empresários promovem os acontecimentos. A Federação das Indústrias do Estado de
São Paulo (Fiesp), publicamente, e a Federação das Industrias do Rio de Janeiro
(Firjan), timidamente, apoiaram as manifestações do “fora Dilma” e, juntamente
com os movimentos ditos independentes “Vem pra rua” e “Movimento Brasil Livre”,
conseguiram realizar as grandes manifestações do dia 13, desta vez com o apoio de partidos políticos e
embalados por hinos e cores patrióticas. As principais palavras de ordem foram
fora Dilma, fora PT, fora corrupção. Esqueceram, porém, todos os outros
corruptos que ocupam as cadeiras do Congresso Nacional a começar pelos presidentes
das duas casas. A situação política se agrava e certamente a euforia do
“mercado” vai aumentar.
Não se sabe o que ocorrerá se a Dilma for
deposta e setores da classe média urbana, furiosa e radicalizada pelo
agravamento da situação econômica que atinge sua capacidade de consumo, tem
apelado até para a intervenção militar o que se expressou no “Bolsonaro
presidente” apelo visto nas manifestações. Vem tempestade por aí.
Tudo isso agrava ainda mais a situação
econômica, que continua a se deteriorar, o que é normal e previsível na fase de
crise do ciclo econômico. Como afirma o jornal Valor Econômico, em editorial na
edição da segunda-feira: “O Brasil passa por uma correção cíclica clássica, que
vai lidar com excessos dos anos passados ...” A política econômica dos governos
PT adiou o estouro, chamado na época de marolinha, mas não pode impedir o
movimento, que agora se completa. Pagamos o preço com atraso. O que é pior é
que, agora, o PT resolveu fazer, de forma envergonhada, a política econômica do
Aécio Neves e seu “ministro” Arminio Fraga, o que agrava a recessão por ser uma
política de austeridade, atualmente banida em todos os principais países do
mundo. Já há estimativas de que a queda do Produto Interno Bruto (PIB), em
2016, chegará aos 4%. Para o Ministro do Desenvolvimento Armando Monteiro já
chegamos ao fundo do poço e até o final do ano começará a recuperação. Os
analistas consideram isto verdadeiro para a indústria, mas o comércio
continuará em queda.
A nível internacional a situação, como já
havíamos observado, continua a se deteriorar. Duas organizações internacionais
emitiram alertas. Em Washington, o Fundo Monetário Internacional (FMI) declarou
que a economia mundial atravessa “inquestionavelmente, um momento delicado”. Há
o crescente “risco de descarrilamento da economia”. Por outro lado a
Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) alertou para
uma “perda de ritmo de crescimento do Reino Unido, EUA, Canadá, Alemanha e
Japão”. Ao mesmo tempo o Federal Reserve (Fed), BC americano, alertou para uma
possibilidade crescente de recessão na economia americana e o Banco Central
Europeu (BCE) desencadeou novo relaxamento monetário reduzindo suas taxas de
juros para -0,4% e aumentando suas compras de títulos de €60 para €80 bilhões.
Como já avisamos nova crise mundial vem a caminho e se for deflagrada a
situação do Brasil ficará muito pior.
[i] Professor
Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na
Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).
quarta-feira, 9 de março de 2016
O pior está por vir
Semana de 29 de fevereiro a 06 de março de 2016
Rosângela Palhano Ramalho
[i]
Caro leitor. Esta semana, sem dúvida, foi a mais
turbulenta do ano. Fatos políticos e econômicos agitaram, negativamente, o já
deteriorado cenário interno.
Enquanto o destino do presidente da Câmara dos
Deputados, Eduardo Cunha, como réu da Operação Lava Jato, por corrupção passiva
e lavagem de dinheiro, era finalmente selado, o Copom (Comitê de Política
Monetária) se reunia. Como o “mercado” já apostava, a decisão foi pela
manutenção em 14,25% da taxa de juros Selic, mas, não foi unânime. Ainda há
quem concorde com a elevação dos juros. O diretor de assuntos internacionais,
Tony Volpon, e o diretor de organização do sistema financeiro, Sidnei Corrêa
Marques, defenderam, veementemente, o aumento imediato de meio ponto percentual
na taxa de juros.
Ainda esta semana, os números da atividade econômica
de 2015 foram divulgados, ao mesmo tempo em que uma suposta delação premiada do
senador Delcídio do Amaral (PT-MS) abalava Brasília. Enquanto o governo e o PT
tentavam abrandar a turbulência política, o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) explicava o desabar do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015.
Como já era esperado, o PIB encolheu 3,8%, sendo esta a sétima vez em que o
Brasil registrou PIB negativo. Entre os setores, apenas a agropecuária cresceu
com alta de 1,8%, quando comparada ao ano anterior. A produção da indústria
caiu 6,2% e os serviços recuaram 2,7%. A forte redução da demanda foi
registrada através do recuo de 1% do consumo do governo e de 4% no consumo das
famílias. A queda da produção interna e da importação de bens de capital
provocou uma diminuição na formação bruta de capital fixo de 14,1%.
Números recentes da produção industrial brasileira
dão conta de uma leve recuperação desta atividade. Em janeiro, a indústria
cresceu 0,4%, comparada a dezembro de 2015, segundo a Pesquisa Industrial
Mensal Produção Física do IBGE. 15 dos 24 ramos pesquisados apresentaram crescimento,
mas no acumulado anual, a indústria continua a registrar perdas e a recuperação
do setor não é consistente. É tanto que, o Índice de Confiança da Indústria
(ICI) apurado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) caiu em fevereiro após ter
apresentado melhora em janeiro. O uso da capacidade instalada continua em queda
e atingiu 73,6%, em fevereiro. Em janeiro, este indicador era de 73,1%. Com
estoques em alta e maquinário parado, a indústria continua a registrar queda da
sua participação no PIB. Na década compreendida entre 2005 e 2015, a
participação da indústria de transformação no produto caiu para 11,4%, com um
recuo de 17,4% segundo a FGV.
No comércio, as vendas em 2015 despencaram 4,3%. No
setor de vestuário a queda foi de 8,7%. E não para por aí. A crise chegou ao
setor de serviços. O Índice de Confiança de Serviços (ICS), também apurado pela
FGV, recuou 0,7%, em fevereiro, comparado a janeiro, e segundo a instituição,
há intenções de reduzir o ritmo das contratações nos próximos meses.
Como a grande maioria dos analistas defende que a
crise é de confiança, assim como Guido Mantega, o ministro da Fazenda Nelson
Barbosa demonstra otimismo, ao dizer que a atividade econômica se estabilizará
no terceiro trimestre e apresentará crescimento positivo a partir do quarto
trimestre. Segundo nota divulgada pelo Ministério, a queda do PIB, em 2015,
aconteceu devido à redução dos preços das commodities, à crise hídrica no
primeiro trimestre do ano, aos desinvestimentos da cadeia de petróleo, gás e
construção civil, à correção dos preços relativos e ao ajuste fiscal.
Mas, o fato que coroou a semana foi a condução
coercitiva do ex-presidente Lula para depor na Operação Lava Jato.
Contestações, rebuliços, protestos, discursos inflamados e, surpreendentemente,
bolsa de valores em alta e dólar em queda.
E assim, como num espetáculo burlesco, a semana terminou com uma única
certeza. A de que o pior está por vir.
[i] Professora
do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização
e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br)
Contato: rospalhano@yahoo.com.br
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