sexta-feira, 2 de abril de 2010

O Brasil, o mundo e a crise

Semana de 08 a 14 de março de 2010

Em matéria publicada na edição de fim de semana dos dias 12, 13 e 14 deste mês, o Jornal Valor Econômico, referindo-se à situação do Brasil no período de 1993 a 2008, trouxe a seguinte manchete: "País vivia seu 2° maior ciclo de crescimento".
Em termos de anos seguidos de crescimento positivo esses 16 anos só perdem para o período entre 1943 e 1980. No entanto, outras comparações mostram resultados não tão animadores.
Nos 38 anos que vão de 1943 a 1980, o país teve um crescimento médio de 7,3%, enquanto que, nos 16 anos entre 1993 e 2008, o crescimento do PIB foi, em média, 3,3%.
João Villaverde afirma na referida notícia que este "ciclo" de 16 anos terminou como uma conseqüência do que "pode ser entendido como uma interiorização das turbulências mundiais eclodidas no fim de 2008".
Se este tipo de observação for generalizado poderemos chegar à conclusão que, desde o fim do “milagre brasileiro”, o Brasil vive sofrendo "interiorizações de turbulências mundiais". Podem ser apontadas turbulências como o chamado choque do petróleo (1974), a crise da dívida externa (1981-83) e a crise da bolha pontocom/atentado ao World Trade Center (2000-02), fatos que nada têm a ver uns com os outros. A ser válido este raciocínio, temos de concluir que o país é perseguido por uma série de circunstâncias puramente ocasionais, um terrível azar, que vem prejudicando o seu crescimento.
Mas isso é só a aparência.
O que ocorre há mais de 150 anos no mundo e, desde 1962-64, no Brasil é a manifestação periódica de uma lei: a lei das Crises Cíclicas de Superprodução. O processo de acumulação capitalista provoca inevitavelmente a crise que se manifesta através do desequilíbrio entre a oferta de produtos (sejam eles financeiros ou materiais) e a demanda solvente.
A obtenção de lucro como objetivo da produção e a sua apropriação privada pelos capitalistas chocam-se inevitavelmente com o caráter social do processo produtivo e as necessidades da sociedade. Esta contradição manifesta-se de várias formas, através da anarquia da produção, da concorrência, dos efeitos do progresso tecnológico sobre a mão de obra, com o conseqüente aumento do desemprego, etc. Isto ocorre de forma periódica. Esta periodicidade é determinada pelos investimentos em máquinas e equipamentos que se dão através de encomendas por pacotes. Estas encomendas ocorrem assim que o nível de utilização da capacidade instalada (nuci) deixa de ser seguro. É tecnicamente impossível se comprar máquinas aos poucos, como se fossem matérias primas.
Os estímulos ao setor produtor de bens de capital (setor I) trazem um efeito de arrastamento sobre toda a economia, visto que este setor produz máquinas, mas os trabalhadores por ele contratados precisam de bens de consumo que são produzidos no setor II.
Na medida em que são entregues e instalados os novos maquinários, a demanda no setor I se reduz. Conseqüentemente, ocorrerão demissões e diminuição na produção. O efeito sobre o resto da economia é o da queda considerável do número de consumidores finais. Mas, como as máquinas no setor II já estão roduzindo, ocorrerá um excesso de oferta, dada a redução na quantidade de demandantes. Os estoques se elevam, ocorrem demissões, e a produção se reduz. Em São Paulo, por exemplo, apesar de todos os stímulos, ainda há um déficit de 180 mil vagas de empregos, entre o último trimestre de 2008 e fevereiro e 2010. O vice-presidente da fabricante de caminhões Scania, Martin Lundstedt, admite que a indústria automotiva ainda vai demorar alguns anos para retomar os antigos planos de investimentos.
O objetivo dos governos ao fazerem políticas econômicas é exatamente impedir esse arrefecimento da demanda. Na Alemanha, foi dado um pacote de € 5 bilhões para os consumidores trocarem os carros velhos por novos. A China e os EUA tomaram medidas semelhantes. Na China, apesar das pressões, o governo declarou que irá flexibilizar o câmbio lentamente, na medida em que o setor exportador retomar o fôlego. Na Europa, Alemanha e França planejam criar um Fundo Monetário Europeu, para reforçar a cooperação e a vigilância aos países da Zona do Euro. No entanto, o caso mais falado do momento é a crise orçamentária da Grécia, com um déficit de 12,7% do PIB em 2009. Estima-se que seja necessário, este ano, um montante de € 54 bi em captação para o país, dos quais apenas de € 5 bilhões foram obtidos com a venda de títulos.
No Brasil, o PAC 2 prevê um investimento de R$ 15 bi só no Plano Nacional de Banda Larga. Enquanto isso, o setor de autopeças está comemorando o que se espera ser o ano de maior volume de encomendas.
Historicamente, foi o Plano de Metas de JK, entre 1956-61, que garantiu o montante de investimento para que, em 1962-64, ocorresse a primeira crise cíclica de superprodução no Brasil. Esta foi uma exclusividade nossa, na medida em que o mundo vivia ainda os "30 anos gloriosos", os 30 anos que sucederam a 2ª Guerra Mundial, durante o qual predominou o Welfare State. Daí em diante, o Brasil seguiu esta lei que rege o capitalismo.
Assim, em 1974, o choque do petróleo não foi a causa do fim do milagre, nem na década de 80 a crise da dívida causou a superprodução, ou no início dos anos 2000 a bolha pontocom/Bin Laden causaram a crise. Estas apenas foram as formas deflagradoras do fenômeno da superprodução que já se anunciava como necessário.


Texto escrito por:

Lucas Milanez de Lima Almeida: Professor Substituto do Departamento de Economia da UFPB, mestrando em Economia pelo CME-UFPB e membro do Progeb.
Email: progeb@ccsa.ufpb.br


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domingo, 28 de março de 2010

Por quem os sinos dobram?

Semana de 01 a 07 de março de 2010

No cenário internacional, alguns acontecimentos deram a tônica das principais preocupações da semana. Um deles foi o risco de superaquecimento na China. As previsões, num cenário otimista, eram para um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país de 8,4%. Diante do desempenho da economia chinesa em 2009, alteraram-se as expectativas. Em 2010, num cenário mais pessimista, o PIB daquele país cresceria 9,6% e num cenário otimista, 11,5%.
Este crescimento para além do previsto tem sido atribuído, em grande parte, aos estímulos sem precedentes, como o de 4 trilhões de renmimbis em programas de investimentos (US$ 600 bilhões, ou 12% do PIB), 950 bilhões de renmimbis (US$ 140 bilhões, ou 35% do PIB) de déficits orçamentários e 10,5 trilhões de renmimbis (US$ 1,5 trilhões, ou 31% do PIB) em novos empréstimo. O investimento, que tem sido a chave do crescimento do PIB, subiu 30% em ativos fixos em 2009, 4,6% a mais do que em 2008. A proporção investimento/PIB, estimada em 55% um ano atrás, agora passou para 67%.
Nos Estados Unidos, os fundos de hedge, que são remunerados utilizando a estratégia de fazer operações para garantir outras operações contratadas, lançaram uma forte investida contra o euro, que teve sua cotação reduzida, de US$ 1,51, para US$ 1,35, o que, na perspectiva do mega especulador Geoge Soros, só não levará o euro a bancarrota se a União Européia alterar a sua política monetária e financeira. Poucos são, no entanto, os operadores que acreditam que o valor do euro desmoronará totalmente, como ocorreu com a desvalorização da libra esterlina em 1992, na esteira de uma grande aposta, do mesmo especulador, que naquela ocasião teve um ganho equivalente a US$ 1 bilhão.
Por seu lado, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou que retomará o seu formato padrão de agir, retirando gradualmente as medidas extraordinárias de ajuda à economia da zona do euro. Mas, o pesidente do BCE, Jean-Claude Trichet, afirmou que continuará a sua linha de empréstimos e manterá o nível baixo da taxa de juro, 1%. O BCE, além disso, manterá estáveis as previsões para o crescimento e para a inflação da zona do euro neste ano, reduzindo as previsões para o ano que vem. No interior do bloco, o governo da Grécia continuou a agir drasticamente no sentido de eliminar seu déficit de €$ 4,8 bilhões, através de medidas que impõem cortes orçamentários, como o congelamento, por um ano, das pensões dos servidores públicos e a redução de 30% dos abonos salariais além de aumentos gerais de impostos, que devem crescer em 2% sobre o valor agregado, particularmente sobre cigarros e gasolina.
No hemisfério Sul, em conseqüência do tremor de terra, agravou-se a situação econômica do Chile, com seus reflexos nos países com os quais mantém relações comerciais, principalmente os importadores do cobre chileno, que verão afetados os preços dessa matéria-prima. Outros acontecimentos de realce nessa parte do globo foram as assinaturas de um tratado de livre comércio entre o Peru e a China, que já entrou em vigor, e entre Peru e Colômbia, com a União Européia. Nesse último, o principal interesse da Europa parece ser o de exportar automóveis, máquinas, serviços, vinho e produtos lácteos. Estes tratados trarão, sem dúvidas, conseqüências para o Brasil, como por exemplo, a possibilidade de importação de produtos chineses com tarifa zero, através do Peru.
E já que falamos de Brasil, o Banco Central do país prepara uma revisão das normas para operações de câmbio. Henrique Meireles, seu presidente, afirma querer uma limpeza das regras ainda esse ano. O objetivo é o de conter a acumulação de créditos tributários criados no recolhimento dos impostos nas etapas de produção das mercadorias para exportação. Com as medidas se pretende facilitar as exportações brasileiras e aumentar a competitividade do país. Para Meireles, é preciso fazer uma limpeza das normas, eliminando regras anacrônicas e simplificando procedimentos necessários para ingressos e  remessas de moedas estrangeiras.
Enquanto no exterior, se discute o tamanho dos bancos no pós crise, no Brasil, a concentração bancária não para de avançar. Os oito maiores bancos brasileiros concentram, nesse momento, 88,6% do total do sistema financeiro, onde se destaca o Banco do Brasil, que concentra 20,1% de todos os recursos concedidos por meio de empréstimo bancário. A Caixa Econômica Federal responde por 8,8% dos empréstimos. Somando-se os bancos públicos menores e o BNDES, a participação estatal no sistema financeiro supera os 41% do total.
Comenta-se que, antes mesmo do início do ciclo de alta do juro básico pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, a taxa real de juro projetada para 12 meses está em 6%. Mesmo sem a elevação da Selic, congelada desde julho do ano passado, em 8,75%, esta taxa básica já é a maior taxa de juro real do mundo e, de acordo com o ranking organizado pela consultoria UP Trend, vem seguida pela Indonésia, com 3,6%, e pela China, com 3,3%.
Com semelhante taxa de juro aliada à desconfiança crescente no Euro e a pouca confiabilidade na economia americana, os investidores estrangeiros carreiam os seus recursos para aquisição de ativos denominados em reais. A primeira vista, isso pode parecer que a credibilidade da economia brasileira está em alta. No entanto, esta aparência não corresponde à realidade. É bastante observar a economia para constatar que o risco de inflação é uma realidade admitida por todos. A inflação medida pelo Índice de Preços do Consumidor Amplo (IPCA) fechou o ano passado em 4,3%, pouco abaixo da meta de 4,5% pretendida pelo Banco Central. Em janeiro deste ano, houve, no entanto, uma aceleração do índice, que registrou 0,75% de aumento, a maior alta mensal desde maio de 2008. Pode-se observar também que apesar do recorde de exportação, o saldo da balança comercial, em fevereiro, é o menor desde 2000 e que não houve nenhuma inovação substancial para melhorar o desempenho da economia. Esse é um país tão precário que até as multas de trânsito, que supostamente deveriam ser usadas como fundo para salvar vítimas, estão sendo desviadas e usadas para pagamento dos juros da dívida pública.
Afinal, é caso de se perguntar: “Por quem os sinos dobram?”

Texto escrito por:
Elivan Rosas Ribeiro: Professora do Departamento de Economia da UFPB e Pesquisadora do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.
Email: progeb@ccsa.ufpb.br

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quarta-feira, 24 de março de 2010

Se correr, ou se ficar, o bicho pega e come

Semana de 22 a 28 de fevereiro de 2010

Temos destacado em nossas análises o caráter contraditório da atual fase do ciclo econômico, a recuperação. São exemplos: a quebra de mais quatro bancos nos Estados Unidos e a ameaça de insolvência de diversos países europeus (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). No entanto, mesmo diante da fragilidade verificada no setor financeiro, os governos dos Estados Unidos e de países da Europa como Alemanha, França e Inglaterra, começaram a retirar as medidas emergenciais.
Os diversos governos têm sido convocados a adotarem políticas de austeridade econômica, o que significa a aplicação de medidas restritivas.
Na União Européia, fala-se em congelar salários e aumentar a idade de aposentadoria, com o objetivo de reduzir os déficits orçamentários. A retirada das medidas emergenciais somada ao ajuste fiscal provocou uma onda de greves na Zona do Euro. Na Grécia, foi convocada uma greve geral de 24 horas; em Portugal, os trabalhadores anunciaram uma greve nacional para o dia 4 de março; e na Espanha, os sindicatos iniciaram uma marcha de protestos no dia 23 de fevereiro. A Confederação Européia dos Sindicatos (CES) afirmou que os protestos “vão se multiplicar diante da insatisfação real, da inquietação forte em meio a riscos de regressão social”. Joel Decaillon, “número dois” da CES, afirmou que a Europa perdeu 5 milhões de empregos em 2009 e pode perder outros 7 milhões em 2010.
Em períodos de crise, as condições de trabalho se deterioram, com o aumento de trabalhadores temporários mal pagos e a intensificação da jornada de trabalho. Nesse sentido, Decaillon expressa o seu descontetamento com a atual situação dos trabalhadores, ao dizer que “a taxa de desemprego é muito alta, o trabalho precário avança velozmente.”
Mesmo no país mais poderoso da Zona do Euro, a Alemanha, a situação não é das mais confortáveis. O déficit fiscal ultrapassou 3,3% do PIB, sendo esta a primeira vez, desde 2005, que o país não conseguiu manter o limite máximo de 3%, apesar de todo o empenho e rigor da premiê Ângela Merkel, intransigente defensora do respeito ao limite dos 3%. Além do mais, o Produto Interno Bruto (PIB) só não registrou retração no quarto trimestre de 2009, porque a indústria aumentou suas exportações para as economias mais “sadias”.
Ora, a dívida pública apresenta uma dupla face. De um lado, ela cria uma classe de parasitas financeiros, os rentiers, que enriquecem negociando os títulos de dívida na bolsa de valores. A aquisição dos títulos da dívida, por parte de industriais, comerciantes, sociedades anônimas, bancos e especuladores, faz prosperar o jogo na bolsa, o que Marx denominou de “bancocracia”. Mas, por outro lado, o pagamento da dívida requer o aumento dos impostos e esses recaem, de modo geral, sobre os meios de subsistência de primeira necessidade, ou seja, aqueles destinados à reprodução da força de trabalho. Desse modo, confirma-se a afirmação de Marx de que “a única parte da chamada riqueza nacional que é realmente objeto da posse coletiva dos povos modernos é (...) a dívida pública.”
Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama criou uma comissão interpartidária para analisar o problema do déficit fiscal, que deve chegar a 10,5% neste ano. Para reduzir este déficit, as propostas não são nada animadoras para os trabalhadores: aumento dos impostos, adiamento de aposentadorias e corte nos serviços médicos cobertos pelo governo. Em 2007, antes do estouro da crise, a dívida do governo federal era de 37% do PIB, mas, em 2009, ultrapassou 53%. O Federal Deposit Insurance Corp. (FDIC), agência do governo dos EUA, informou que 702 bancos eram considerados problemáticos no fim de 2009. A FDIC disse que o aperto final ainda está por vir, pois outros 140 bancos podem ficar sob sua supervisão. O total de ativos problemáticos chegou ao patamar de US$ 402,8 bilhões no fim do quarto trimestre de 2009. A venda de casas nos EUA apresentou queda recorde, com retração de 11,2%, em janeiro. Jennifer Lee, economista do BMO Capital, disse que, apesar da ajuda do governo, “o setor deu outro grande passo para trás”.
A atual situação da economia dos EUA é de um verdadeiro impasse. Os consumidores não compram, os bancos temem emprestar, as empresas não contratam e o Estado retira os estímulos. O economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Olivier Blanchard, disse que a economia dos EUA estaria crescendo por uma combinação de insulina (estímulos fiscal e monetário) e açúcar (a ansiedade dos empresários de preencher estoques vazios). Blanchard destaca que “a contração foi muito sincronizada. Mas a recuperação? Cada vez menos.” O impasse da economia também repercute no nível de emprego. A situação dos trabalhadores é preocupante. Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos), disse que “as aberturas de empregos (nos EUA) são escassas”, com o aumento na demanda por mão de obra temporária.
No resto do mundo, alguns países apresentam certa recuperação. Argumenta-se que esta depende dos mercados globais que são estimulados pela “incansável” economia chinesa. Entretanto, Kenneth Rogoff, professor da Universidade de Harvard, disse que a China pode sofrer um baque nos próximos anos. Rogoff afirmou que “a reação chinesa à recente crise financeira aumentou claramente os riscos de que a China tenha uma bolha na economia alimentada por dívidas.” Ele completou que os valores dos imóveis se descolaram da realidade, sendo o mercado imobiliário o setor mais provável de eclosão de bolhas.
Com esse quadro da economia mundial, não surpreende o fato de que sobrem recursos para o comércio global. De acordo com Raed Safadi, diretor adjunto do departamento de comércio e agricultura da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), dos US$ 250 bilhões que o G-20 (grupo dos 20 países mais ricos do mundo) arrecadou em 2009, apenas 67% foram utilizados, restando US$ 80 bilhões ociosos. Isto é indicativo de que, mesmo com as taxas de juros mundiais em níveis muito baixos, os capitalistas não se arriscam a investir, o que acaba por travar a recuperação da economia mundial.
Então, os governos se vêem pressionados a continuarem com as políticas emergenciais, dadas as pressões sociais e, ao mesmo tempo, são forçados a adotarem medidas restritivas, tendo em vista a debilidade de seus orçamentos, o que aumentará ainda mais a insatisfação social.
Temos, portanto, o ressurgimento, noutro plano e noutra escala, de um antigo paradoxo: se o governo correr ou ficar o bicho pega e come.

Texto escrito por:
Kaio Glauber Vital da Costa: Economista, pesquisador do Progeb-Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.

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Alta tensão na zona do Euro

Semana de 15 a 21 de fevereiro de 2010

O sistema financeiro mundial continua fortemente instável, e os mercados mundiais se encontram em alerta diante do perigo de eclosão de uma nova crise econômica e financeira, antes mesmo das consequências da última crise terem cessado.
No dia 19 passado, as autoridades americanas anunciaram a falência de mais quatro bancos nos Estados Unidos, aumentando para 20 o total de instituições que faliram somente este ano.
No início do mês, aumentou também a preocupação dos investidores com a enxurrada de notícias sobre o forte endividamento dos países europeus. Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha estão entre os que possuem as maiores dívidas. No caso da Itália, a dívida já representa mais de 100% do seu Produto Interno Bruto (PIB).
A situação na Europa ficou ainda mais complicada com as denúncias de que alguns países, como a Grécia, para aderir à zona do euro, ocultaram bilhões de dólares em dívidas com a ajuda de grandes bancos internacionais, o que já está sendo chamado de “subprime europeu”. Uma estratégia parecida com aquela que impulsionou o crescimento das hipotecas de alto risco nos Estados Unidos.
Instituições financeiras como o JPMorgan Chase e o Goldman Sachs desenvolveram instrumentos que possibilitaram aos governos da Grécia e da Itália mascararem empréstimos, forjando suas contas para criar a aparência de uma boa administração. A proposta apresentada pelo Goldman Sachs à Grécia esteve baseada num instrumento financeiro que prolongou sua dívida, empurrando-a para o futuro. Foi uma manobra semelhante à de uma pessoa que faz uma segunda hipoteca para pagar suas dívidas da hipoteca anterior. Em vários acordos dessa natureza, bancos adiantaram dinheiro a países europeus em troca de pagamentos futuros que não eram registrados como empréstimos contraídos, o que acabou por encobrir a real dívida dessas nações. Novamente, a Grécia serve de exemplo. Ela concedeu direitos sobre tarifas aeroportuárias e proventos de loterias como formas de pagamento.
Com as denúncias de fraudes nas contas públicas desses países, aumentou a tensão na zona do euro. A dívida de importantes economias européias, portanto, é bem maior do que aquilo que se pensava, e o grande problema debatido no velho continente agora é como a falência de países como a Grécia, cujo déficit orçamentário, em 2009, alcançou a marca de 12,7% do PIB, pode repercutir de maneira desastrosa na economia global. Alguns temem que esta falência traga consequências ainda piores, para o sistema bancário, que a quebra do Lehman Brothers, ocorrida em setembro de 2008. Já o colapso da Espanha colocaria em risco também a Alemanha, uma vez que os bancos alemães são detentores de grande parte dos títulos da dívida espanhola.
Os efeitos negativos dessa forte integração econômica e da livre mobilidade de capitais levaram economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) a modificarem a visão da entidade sobre o controle destes capitais. O FMI passou a sugerir que os países devem usar impostos e regulamentação para moderar a euforia dos capitais, responsáveis pelo surgimento das bolhas especulativas. Dessa maneira, o FMI altera o velho dogma sagrado do livre mercado, que sempre defendeu, chamando a atenção para o risco de formação de novas bolhas especulativas em países emergentes, como a China, onde os temores com a especulação imobiliária e a aceleração da inflação não param de crescer.
Se ao nível financeiro as tensões aumentam, no mundo do trabalho, as relações entre empregadores e empregados continuam muito instáveis. Em janeiro, trabalhadores da AB InBev, maior companhia de cerveja do mundo, bloquearam as entradas de fábricas da empresa na Bélgica durante duas semanas, exigindo o abandono do plano de eliminar 10% dos seus atuais 8 mil empregados na Europa Ocidental. A companhia, que detém 25% do volume mundial de vendas de cerveja, chegou a acorrentar os portões da fábrica na cidade de Leuven, para não permitir a entrada dos trabalhadores e forçar a demissão coletiva de 300 deles. Os custos das demissões e a pressão política das autoridades do Governo Belga, que avisaram que não arcariam com o seguro-desemprego, levaram a cervejaria a abandonar temporariamente o plano de demissões.
Nos Estados Unidos, as demissões em massa tornaram-se frequentes durante a crise, assim como as falências, os planos de reestruturação e corte de custos. Este fato, segundo o jornalista C. Sardenberg, vem proporcionando uma recuperação mais rápida em relação às demais economias que operam com amplas redes de proteção social, como a Alemanha, onde o governo pagou para que as empresas não demitissem, estimulando-as a contratarem em tempo parcial, pagando aos trabalhadores as horas não trabalhadas. Nos Estados Unidos, as empresas simplesmente demitem, fecham as fábricas e cortam custos, de tal maneira que o ajuste econômico é mais rápido, embora o custo social seja bem mais elevado. Mas a destruição e a violência das leis econômicas fazem mesmo parte do capitalismo, e a ação do Estado para reduzir tais efeitos constitui apenas uma tentativa de intervir na dinâmica de funcionamento desse sistema.
Enquanto isto, no Brasil, em ano de eleições, o afrouxamento fiscal que envolve a elevação de gastos da máquina administrativa preocupa os mais ortodoxos, entre os quais se encontram os principais quadros do Banco Central. Por isso, a expectativa é de elevação da taxa básica de juros, a Selic. De acordo com o Instituto Internacional de Finanças (IIF), órgão que representa as maiores instituições financeiras do mundo, a Selic deve saltar, dos atuais 8,75%, para 12,25% até o final de 2010. Caso isto ocorra, o Brasil encerrará o ano bem mais perto da posição que ocupava até pouco tempo, de país com a maior taxa de juros do planeta. Algo bastante coerente com a política econômica brasileira dos últimos anos, que, apesar dos programas de assistência social de caráter paliativo, sempre obedeceu à risca os mandamentos da cartilha econômica canônica do FMI. Como lembra Delfim Netto, ela esteve baseada na perseguição incansável pelas metas de inflação, na formação de superávits primários para o pagamento da dívida e na flutuação cambial acompanhada de grande mobilidade de capitais, mobilidade que se pretende ampliar.
Com efeito, se discute um projeto que pretende transformar São Paulo em centro financeiro da América Latina, através de medidas que visam ampliar a liberdade de entrada e saída de capitais, como a eliminação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), cobrado dos investidores (especuladores) externos. O projeto começou a ser pensado, acerca de um ano, pela iniciativa privada e tem a participação do governo. Ou seja, mais uma vez o Brasil chega atrasado à festa, no momento em que a farra financeira está demonstrando sinais de extrema fragilidade e que os demais países tentam criar mecanismos adicionais de controle de capitais.
Parece que, novamente, o Brasil se encontra na contramão da economia mundial.

Texto escrito por:
Diego Mendes Lyra: Mestrando em economia, Professor Substituto do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb – Projeto globalização e crise na economia brasileira

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quinta-feira, 18 de março de 2010

A Globalização e a Recuperação da Economia Brasileira

Semana de 08 a 14 de fevereiro de 2010

A globalização vem se desenvolvendo ao longo dos tempos através das várias expansões do comércio internacional e de suas seguidas transformações. Grosseiramente, poderíamos defini-la como uma progressiva integração das esferas de produção, distribuição e consumo dos países do globo. O que preocupa em momentos de crise, entretanto, é que esta união, assim como o matrimônio, é válida na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, e todos sabem disto.
Não foi sem razão que o “espectro do nervosismo” rondou a Europa esta semana e espalhou-se pelo resto do mundo, refletindo-se nas bolsas de valores. A ansiedade dos especuladores, que tinha como fonte a situação da dívida pública grega, só diminuiu após o anúncio, nesta quinta-feira, de que, caso o país precisasse, seria socorrido pelos seus parceiros de bloco econômico. Embora tais especuladores não saibam ao certo o porquê, sua preocupação realmente tem fundamento.
A função do dinheiro como Meio de Pagamento consiste em viabilizar o ciclo das mercadorias apenas por intermédio de dinheiro ideal, ou seja, sem a presença física do dinheiro. Durante a crise, esta função do dinheiro foi demasiadamente utilizada na tentativa de minimizar a destruição de capitais e trazer rapidamente de volta o crescimento econômico mundial. O fato que não é do conhecimento da maioria dos “policy-makers” (elaboradores de políticas econômicas) é que a recuperação econômica não depende de suas vontades, mas sim das “vontades” do Modo de Produção Capitalista.
Assim como esta função do dinheiro pode servir para “driblar” momentos ruins, ela também é uma das formas de manifestação das crises. Diante disto, se a destruição de capitais não se completou devido a sua utilização, em virtude dela, a crise voltará. E, ao que tudo indica, é o que está para acontecer.
Não só a Grécia, mas também Portugal, Irlanda e Espanha estão com as contas públicas em situação de risco. A semelhança da situação de tais países foi reconhecida pelos agentes econômicos através da criação da sigla Pigs para fazer referência a eles. Juntos, os Pigs têm uma dívida com bancos europeus que atinge a cifra de US$2 trilhões. Só a Grécia possui US$330 bilhões desta dívida. Assim, caso o país decretasse moratória, deixando de honrar com seus compromissos, esta situação crítica facilmente espalhar-se-ia pelo bloco europeu via sistema financeiro.
A tão glorificada economia chinesa não deixa por menos. Segundo o advogado especialista em falências Niel McDonald, já há “trilhões e trilhões de yuans em empréstimos de difícil recuperação na China, e ninguém está fazendo nada a esse respeito”. Em virtude deste acúmulo de “créditos podres” no país, o advogado não hesitou em afirmar: “Em algum momento deverá haver algum ajuste de contas para isso”.
Mas, isto não é tudo. A situação pode ainda tomar proporções maiores do que se imagina. Isto porque, segundo a consultoria McKinsey, a dívida das dez economias mais desenvolvidas do mundo aumentou 60% desde 2000 e hoje alcança a casa dos 40 trilhões. O fato é que este montante representa 330% do PIB destes países, ou seja, é cerca de três vezes maior do que a riqueza que eles produzem.
Neste caso, portanto, não só é possível, como também é bastante provável que as barreiras que impedem o consumo, conteúdo das Crises Cíclicas de Superprodução, se manifestem através de outra forma e tragam de volta o cenário de crise econômica. Resta-nos saber, contudo, se veremos apenas o desenrolar de uma crise complementar ou de uma catástrofe.
No Brasil, a situação é bem diferente da européia. Em janeiro deste ano, na comparação com janeiro de 2009, a inadimplência da economia caiu 3,14% e houve um aumento de 3,12% nos pedidos de cancelamento de registros no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Em virtude disto, constatou-se, no mesmo período, um aumento de 7,11% nas vendas a prazo no varejo. Devido a estes e outros estímulos, ocorreu um aumento de 0,54% no emprego na comparação do mês passado a dezembro de 2009. Este aumento representa uma criação de 12 mil postos de trabalho. Por sua vez, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada do mês de dezembro, que subiu, de 81,3% em novembro, para 81,7%, já apontava nesta direção.
Todavia, embora se verifique claramente o surgimento das condições para a retomada do crescimento na economia brasileira, esta situação pode ser revertida. Por melhor que esteja a situação da nossa economia frente ao resto do mundo, caso um novo mergulho seja deflagrado pela Grécia, a situação de crise espalhar-se-á não só pela União Européia. Em um segundo momento, ela irá espalhar-se por todo o mundo. A globalização não só é válida para países que integram um mesmo bloco econômico, mas também para as demais economias do globo, pois todas elas estão, de algum modo, ligadas economicamente.
Portanto, em virtude das contradições geradas pelo fenômeno globalização, somos obrigados a anunciar que a recuperação da economia brasileira, se não for revertida, será, pelo menos, deformada pela presença de taxas de crescimento menores que o esperado. E isto ocorrerá com qualquer economia que esteja integrada ao movimento cíclico mundial do capitalismo, pois é assim que são as tão faladas Crises Cíclicas de Superprodução.

Texto escrito por:
Antonio Carneiro de Almeida Júnior: Economista, Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Econômico da UFPR, PPGDE/UFPR, e pesquisador do PROGEB - Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.

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