quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Economia de mercado

ANÁLISE DE CONJUNTURA ECONÔMICA
(Semana de 30 de janeiro a 05 de fevereiro de 2012)

Lucas Milanez de Lima Almeida(*)

Atualmente, vivemos na chamada economia de mercado, que se caracteriza, dentre outras coisas, pela distribuição da riqueza por meio da troca. Isto quer dizer que, para obter alguns dos produtos necessários a sua sobrevivência, as pessoas precisam trocar o que elas possuem com outras. Se todos tivessem livre acesso aos instrumentos e meios de trabalho, cada um poderia criar seus produtos e, quando necessário, trocá-los, seja por dinheiro ou por outras mercadorias. O problema é que estes objetos necessários à produção, na nossa economia de mercado, são de propriedade de uma pequena parte da população e isto impe-de o livre acesso da grande maioria a eles. O resultado é que temos uma parcela da socie-dade que não pode produzir e, consequentemente, não tem nenhum produto a oferecer. E agora?! Agora, só nos resta recorrer à outra característica desse tipo de economia: a liber-dade do cidadão sobre si mesmo, liberdade de fazer suas próprias escolhas.

Sendo donos do seu destino, os homens podem oferecer às outras pessoas sua capa-cidade de trabalhar. E quem teria tamanha bondade para salvar a vida destes pobres infeli-zes e aceitar esta oferta? Os únicos que podem fazer isto são os empresários, que detêm os meios de produção. E o fazem pagando aos trabalhadores uma quantia em dinheiro sufici-ente para sua sobrevivência: o salário. Mas, sabendo que as coisas se movimentam pela troca, qual seria a recompensa para o bom empresário?

A compensação é a apropriação de tudo aquilo que o trabalhador cria durante a pro-dução. Todas as mercadorias vão para as mãos do empresário, que as vende por um preço maior do que aquele pago pelos meios de produção e pela força de trabalho. É aí que se apresenta o lucro, elemento tido como recompensa do espírito empreendedor do ser huma-no. Existe outro tipo de agente econômico que também tem esse espírito: o banqueiro.

Para ajudar os trabalhadores e lhes dar o que comer, é necessário que se tenha di-nheiro, não apenas para os salários, mas também para as máquinas, equipamentos, aluguéis, etc. Mas, se o empresário passar por um momento de dificuldade e porventura não dispuser de todo o capital, o que deve fazer? Ele pode recorrer ao banco e pegar um empréstimo. Porém, como em toda economia de mercado, esta transação deverá gerar uma recompensa: do lucro que o empresário vai receber, deve-se deduzir uma parte e entregar ao banqueiro como pagamento do capital adiantado, sob a forma de juros.

Mas, se o banco entrar em dificuldade, quem ajudará a mais bondosa de todas as instituições, provedora de fundos para a manutenção da humanidade? Como na Grécia, Itália e Espanha, quem pode ajudar os bancos são os governos democraticamente eleitos.

E, mesmo falando em democracia, vivemos numa economia de mercado. Tudo fun-ciona pelo toma lá da cá. Não é novidade para o nosso leitor a situação atual da economia global e brasileira. Só quem não admite ainda é o ministro Mantega, que está tão ultrapas-sado que suas previsões ganharam uma fórmula: “Se ele disser que vai crescer (o PIB) 4%, cresce 3%. Se disser que vai crescer 3%, dá 2%”. Esta afirmação foi feita por uma fonte que participa da viabilização de um novo pacto pelo crescimento econômico, formado pelo governo e um conjunto dos maiores empresários do país, dentre banqueiros e empresários industriais. O desespero é grande, pois, além de tudo, é ano de eleições municipais.

Mas, por que o governo quer garantir o crescimento e salvar os empresários? Já vi-mos que são eles os bons cidadãos que empregam os pobres trabalhadores. Por outro lado, será que não existe mais algum motivo para este desespero? A resposta pode estar na pres-tação de contas do PT em 2010: dos R$ 212 milhões recebidos, 82% foram doações de pes-soas jurídicas, dentre as quais, empresas públicas e privadas. Só o Itaú Unibanco doou R$ 4 milhões, o Banco BankPar S/A doou R$ 3,2 milhões e as construtoras Queiroz Galvão, Odebrecht e Andrade Gutierrez, pelo menos R$ 1 milhão cada uma.

Diante da generosidade dos empresários, ficou difícil agradar a todos. Como maio-res doadores, os bancos tiveram o maior retorno: em 2011, o Brasil pagou R$ 236,7 bilhões em juros e encargos da dívida pública, o que representou 5,72% do PIB. Imaginem como ficaram os industriais: deixaram de pensar na desindustrialização que o Brasil está sofrendo para imaginar o que poderiam fazer com esta quantia. E os trabalhadores, que desejavam ter um aumento de pelo menos R$ 360 no grandioso salário mínimo.

Fazer o que? É o mercado! Recebe quem tiver mais para oferecer.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A zona do euro aos trancos e barrancos

Semana de 23 a 29 de janeiro de 2012

Nelson Rosas Ribeiro[i]

O medo da recessão continua a rondar a União Européia (UE) e particularmente a zona do euro. Os dias passam, medidas tímidas são tomadas, e a crise se mantém e se alastra. O caso grego não está, nem de longe, contornado, e agora Portugal segue o mesmo caminho. O Reino Unido acena com a chamada recessão técnica, que está à vista (crescimento negativo durante 3 meses). No quarto trimestre do ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) decresceu 0,2%, e espera-se decrescimento no primeiro trimestre deste ano. Em 2011, o crescimento do PIB foi de apenas 0,9%. A situação econômica mostra um quadro clássico de crise: consumo fraco, empresários desconfiados, falta de crédito, desemprego, salários baixos, etc.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), no relatório Panorama Econômico Mundial, rebaixou suas previsões de crescimento para o PIB mundial estimando um decrescimento de 0,5% para a Zona do Euro e reduzindo, de 4%, para 3.3%, o crescimento mundial. Prevê também decrescimento para a Espanha (-1,7%) e para a Itália (-2,2%). O economista chefe da entidade, Olivier Blanchard, afirmou que “o mundo poderá ser esmagado por outra recessão”. Paradoxalmente, o FMI recomenda moderação nas medidas de austeridade e a disponibilização de mais recursos nos fundos de socorro europeus. Até as previsões para os países emergentes foram rebaixadas, de 6.1%, para 5,4%.

A situação também se agrava nos países asiáticos. O Japão anunciou o seu primeiro déficit na balança comercial desde 1980. A crise no país, a crise mundial, a catástrofe natural do tsunami, o crescimento dos emergentes e o deslocamento de empresas japonesas para o exterior são apontados com os principais fatores.

O socorro, que se esperava vir do BCE, arrasta-se nas discussões e oposição do governo Alemão, que só concorda em aumentar a ajuda se for aumentado o controle sobre os orçamentos dos países, o que significa ainda mais perda da soberania nacional.

No entanto, para ajudar os bancos, o BCE abre rapidamente os cofres. Em dezembro, ele emprestou, a cerca de 500 bancos, 489 bilhões de euros, a juros de 1% ao ano, por um prazo de 3 anos. Parte deste dinheiro está voltando aos governos com a compra de títulos dos países que pagam juros superiores a 4% e que atingem até dois dígitos. E o BCE já está preparando um novo pacote para inundar o “mercado” de “liquidez”.

O problema que se coloca cada vez mais é como enfrentar a crise, que é de superprodução, com medidas de austeridades que reduzem o emprego, os salários, o consumo público e privado, os investimentos, etc.

No que se refere aos juros, os Bancos Centrais têm reduzido as suas taxas de referência. O BCE reduziu sua taxa para 1%, e o Fed (BC americano) manteve a sua no intervalo de 0 a 0,25%. É claro que os especuladores aproveitam-se disto e já efetuam as operações de “carry trade” com as duas moedas. Pedem empréstimos nestas moedas para convertê-las em moedas da Austrália, Brasil, México, África do Sul, Coréia do Sul e etc. para aplicações especulativas nestes países.

No Brasil, sob o comando da presidente Dilma, o BC mudou o comportamento e também voltou a reduzir os juros em 0,5%, atingindo agora 10,5% ao ano. Avisou também que continuará a reduzi-los e que, em 2012, eles chegarão a apenas um dígito.

No nosso caso há certo nervosismo que se instala, mas por razões eleitorais. Em ano de eleições é preciso mostrar serviço. O governo luta contra os escândalos das quedas de ministros e de funcionários do segundo escalão, que continuam, e contra um medíocre crescimento do PIB em 2011. As medidas de austeridade tomadas com medo da inflação contribuíram para a desaceleração da economia A sondagem Industrial de dezembro, feita pela Confederação Nacional da Indústria, mostrou um quadro preocupante. O processo de desindustrialização se agrava, e os empresários protestam. O governo joga suas cartas com desespero. Devemos esperar aumento das despesas, do crédito, das contratações. Está a caminho uma situação semelhante a 2010.

Já veremos.



[i] Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

As contradições das três faces do Estado Brasileiro

Semana de 16 a 22 de janeiro de 2012

Tatiana Losano de Abreu [i]

Até a otimista Organização das Nações Unidas (ONU) já reduziu a projeção da economia global para 2012. A estimativa, na melhor das hipóteses, é de crescimento de apenas 2,6%. O problema está na persistência do desemprego elevado, na crise da dívida na zona do euro e na adoção prematura de medidas de austeridade fiscal. Apesar deste diagnóstico, as medidas continuam. Espanha, França e Itália, seguindo a sugestão de Portugal, apostam na flexibilização do mercado de trabalho, na esperança de que a taxa de desemprego diminua, mesmo que seja através de contratações temporárias e da redução dos direitos trabalhistas.

Em nossas análises, insistimos em mostrar as tentativas dos governos de garantir os interesses do capital industrial e, principalmente, do capital financeiro em detrimento da classe trabalhadora. Esta realidade não existe apenas em momentos de crise, mas se torna evidente diante da necessidade de salvar os bancos e manter a lucratividade do mercado financeiro e das empresas. Ao comparar as políticas dos países europeus, ou até dos Estados Unidos, com a política econômica brasileira, o leitor poderá perceber grandes diferenças.

Estas diferenças vão além da conjuntura atual e encontram fundamento no diferente modelo de política econômica colocado em prática inicialmente pelo Governo Lula e mantido pelo governo Dilma: o projeto neodesenvolvimentista ou pós-consenso de Washington. Este modelo é diferente do nacional-desenvolvimentismo de Getúlio Vargas, da industrialização atrelada ao capital internacional colocada em prática por Jucelino Kubitscheck e do projeto neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. Agora, o Estado é o indutor do crescimento econômico baseado no fortalecimento do capital privado e caracterizado por três vertentes: o Estado financiador, que utiliza o BNDES para fortalecer grupos privados; o Estado investidor, que financia obras de infra-estrutura, garantindo o emprego em setores estratégicos como a construção-civil; e o Estado Social, provedor de políticas sociais de mitigação da pobreza.

O fato de o Estado acumular tantas funções gera contradições, principalmente porque o governo é fortemente influenciado pelo mercado financeiro, por elites tradicionais e pela ortodoxia econômica. Foi diante desta pressão que Lula, no início do seu mandato, divulgou a ‘Carta ao povo brasileiro’, se comprometendo a honrar o pagamento dos credores e, deste modo, garantindo a manutenção da política macroeconômica do governo anterior, baseada na manutenção das altas taxas de juros, na política do superávit primário e nos cortes no orçamento.

A sucessora de Lula, Dilma Rousseff, deparou-se com o grande desafio de garantir a tri-face do Estado, conciliando os interesses do capital financeiro internacional e da elite do agronegócio, ao mesmo tempo em que ainda precisa evitar o acirramento da crise econômica no país e manter o prestígio diante da “inchada” classe C. Por isso, não é de se espantar que o agronegócio se fortaleça com o ‘reformulado’ código florestal; que a usina de Belo Monte seja construída mesmo sem aprovação do IBAMA e às custas do povo indígena da região; e que o BNDES financie grandes fusões e a privatização dos aeroportos, ao mesmo tempo que garante liquidez ao sistema financeiro e crédito barato ao pequeno empreendedor. Também não nos choquemos ao ver que, apesar da criação do Plano Nacional de Educação (PNE), prevendo o investimento de 7% do PIB no setor até 2020, a expansão dos gastos perdeu ritmo em 2011. Também foi vetada parte dos recursos que seriam investidos na saúde pública, agravando uma realidade que poderia levar a privatização do SUS. Já o superávit primário foi garantido pelo governo, com a arrecadação de R$93 bilhões em 2011. O povo brasileiro não reclamou, já que, no ano passado, foram gastos mais de 16 bilhões de reais para atender cerca de 320 mil famílias pobres. Além disso, a presidente presenteou o povo brasileiro com o aumento do salario mínimo que passou para R$ 622,00 no primeiro dia do ano e pretende diminuir o custo do empréstimo para pessoa física através da redução do IOF.

Seriam essas medidas suficientes para comprar o silêncio?



[i] Economista, Professora substituta do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A maldição do triplo A

Semana de 09 a 15 de janeiro de 2012

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Caro leitor. Como anunciado nesta coluna na primeira semana de janeiro, o ano é novo, mas a realidade é velha. Infelizmente ainda não somos portadores nem de novas e, muito menos, de boas notícias.

Antes de fazer o comentário central desta análise semanal, trago informações da economia real: segundo o Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha, a produção industrial daquele país caiu 7% em novembro, em relação ao mesmo mês do ano passado. A crise está abatendo até mesmo o país mais forte da União Europeia: a economia alemã. Embora tenha crescido, no ano passado, 3%, ela encolheu 0,25%, no último trimestre de 2011. O número de desempregados da zona do euro chegou a 16 milhões de pessoas, e a taxa de crescimento prevista para a região, este ano, é de 1%. Os Estados Unidos, que vêm apresentando uma recuperação ainda tímida, divulgaram a criação de 200 mil empregos em dezembro, o que provocou a queda da taxa de desemprego, de 8,7%, para 8,5%. O índice de confiança do consumidor americano aumentou 9,3%, e as encomendas de bens duráveis também subiram. O país, que projeta um crescimento de 2,5% em 2012, teme agora sofrer contágio da crise européia.

Para driblar a crise, Nicolas Sarkozy, presidente da França, está negociando com a Alemanha a introdução de uma taxa sobre transações financeiras em toda a União Européia. Segundo levantamento francês, as transações financeiras diárias alcançam a cifra de US$ 4,6 trilhões. O objetivo seria taxar em 0,1% as ações e bônus e em 0,001% os outros produtos financeiros. Só isto renderia, à União Européia, uma receita anual superior a € 50 bilhões. Apesar de a iniciativa ser apoiada também pela Itália, David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, já se pronunciou contra. E os banqueiros franceses logo lembraram que a crise foi iniciada nos Estados Unidos, de forma que seria justo que a cobrança fosse universal. Se não houver acordo, a França anunciou que adotará sozinha a taxação a partir deste ano.

Em contrapartida, os “investidores” não sabem mais de onde sugar. O simples rumor de que a França poderia ter sua avaliação de risco rebaixada, o que indica um risco maior da sua capacidade de honrar o pagamento de suas dívidas, provocou uma correria para os Estados Unidos. O Tesouro dos Estados Unidos vendeu US$ 21 bilhões em títulos com vencimento em 10 anos e com o menor rendimento já registrado (1,9%).

No dia seguinte, o governo francês confirmou o rebaixamento da sua nota, pela Standard & Poor’s. A agência de classificação de risco reduziu a nota de crédito do país, que era a máxima, de AAA, para AA+. Além da França, a Áustria também perdeu o triplo A. Luxemburgo, Holanda, Finlândia e Alemanha são os únicos a conservarem a nota máxima.

O ministro das Finanças, François Baroin, minimizou a polêmica dizendo que a notícia não era boa, mas não era uma catástrofe e que, no pior dos cenários, a França ficou com a mesma classificação obtida pelos Estados Unidos. Finalizando sabiamente, o ministro declarou: “Não são as agências que decidem a política da França.” Temos que concordar. De fato, estas agências não decidem política alguma de país algum.

Prezado leitor. Se após esta enxurrada de informações, lhe fosse perguntado do que se ocupa então a Economia, não seria surpresa o surgimento de terríveis dúvidas. Afinal, somos bombardeados a todo o momento por diferentes tipos de informação, que nos levam a concluir que, para entender de Economia, basta saber como funcionam as Bolsas de Valores e como aplicar, ganhando dinheiro fácil, nas infinidades de produtos financeiros que estão à nossa disposição.

Aprendemos nos Manuais de Economia que a Ciência Econômica é uma ciência social que deve se preocupar com três questões básicas: O que e quanto produzir, como produzir e para quem produzir. Mas, hoje, no universo da economia, a instituição de maior importância é o “mercado”. Não o real, mas o financeiro. Além disso, especuladores ganharam status de investidores e agências de classificação de risco sobrepõem-se a tudo e a todos e ditam a solvência dos governos.

O leitor não deve se preocupar, afinal ele não está só. Estudantes de Economia e renomados economistas também já perderam o foco e acham natural que o sistema financeiro, que não gera nenhuma riqueza, se sobreponha a atividade produtiva e dite as regras de praticamente todas as economias do mundo.

E ai de quem não obtiver um triplo A!



[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e crise na economia brasileira. (www.progeb.blogspot.com)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O que é globalização?

Semana de 02 a 08 de janeiro de 2012

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

No censo comum, a palavra globalização está impregnada por uma mítica ideia de progresso e desenvolvimento das relações sociais, advinda dos avanços do mundo moderno, os quais permitem a internacionalização do conhecimento e dos mais variados meios de satisfazer as necessidades humanas. Um olhar mais atento, que ultrapasse o senso comum, nos mostraria que a globalização é um movimento “natural” causado pelas necessidades das empresas.

Diante da concorrência, os empresários buscam expandir e, com isso, fortalecer seu capital, fazendo com que, cada vez mais, se produzam maiores lucro. Por outro lado, várias limitações se impõem às empresas nacionais: disponibilidade de recursos para novos investimentos (próprios ou financiados), infra-estrutura, número de concorrentes, limites do mercado consumidor local, abundância de mão de obra disponível e de matéria-prima, etc. O capital que for capaz de superar estes desafios, será o mais forte e vai dominar determinado setor, seja bancário, produtivo, comercial ou os três ao mesmo tempo. Mas, ao chegar a tal ponto, as empresas se deparam com outro problema: se o mercado nacional está ganho, para onde expandir agora? A resposta é simples: ir para os lugares onde os capitais tenham as menores dificuldades para crescer. Para obter lucro “não importa a cor nem o sabor”. O capital não tem e nem precisa ter nacionalidade. Basta ter lucratividade.

A ocupação das empresas começou com o estabelecimento do próprio sistema, quando as companhias de comércio deram sua contribuição para a acumulação inicial do capital. Nos dias atuais, a essência da internacionalização é a mesma, mas sob uma nova roupagem. Ao invés de caravelas, o capitalismo se utiliza de pressões políticas por meio de órgãos internacionais. A violência militar só é utilizada em última instância. Além disso, com as regulamentações da economia, por parte do Estado, os próprios governos podem facilitar, ou mesmo dificultar, o trabalho dos empresários.

Um caso que esta semana virou manchete, mas que não é o único, foi o do Japão. A terceira maior economia do mundo viu a parcela da população envolvida na produção de objetos físicos cair, de 27% no ano de 1970, para 17% em 2011. A causa disto foi a migração das empresas nacionais para outros países, ou seja, a transnacionalização dos capitais. Outro dado é alarmante: além do Japão, a Alemanha, a Itália, o Reino Unido e os EUA têm menos de 25% do PIB advindos da produção industrial.

Nos anos 2000, a saída líquida de capitais do Japão para investimento direto era de US$ 40 bi, enquanto que, em 2008, este número foi de US$ 130 bi. Para se ter uma ideia, os carros produzidos pela Toyota no território japonês correspondem a cerca de 50% da produção total da empresa. Já no caso da Nissan, este número é de apenas 25%. Segundo o presidente da Toyota, Akio Toyoda, “não faz sentido produzir no Japão”.

Mas por quê? O problema é que os custos oriundos de políticas fiscais desfavoráveis e leis trabalhistas rígidas aumentam o custo da produção. Soma-se a isso o câmbio desfavorável, que se valorizou 40% em relação ao dólar desde 2007. O resultado final é a redução da percentagem do PIB japonês no PIB mundial, que caiu, de 14% na década de 1990, para menos de 9% atualmente.

E para onde estão indo as empresas? Para os países onde o custo da produção seja menor. O queridinho dentre os países, atualmente, é a China, que tem o maior mercado mundial, mão de obra barata e grande quantidade de matérias-primas, além de dar incentivos fiscais e financeiros às empresas. Outro atrativo do país é o câmbio artificialmente desvalorizado, que, apenas com a conversão em outras moedas, permite a obtenção de uma grande vantagem no preço dos produtos. Mas, a coisa já começa a mudar por lá. Os trabalhadores estão se organizando em sindicatos e reivindicando melhores condições de trabalho. Empresas de calçados e artigos desportivos já se deslocaram para tigres vizinhos, como Vietnã e Malásia, que ainda não têm grandes movimentos sindicais organizados.

São estes atrativos que criam a integração, a nível mundial, das cadeias de produção, distribuição e consumo de mercadorias. Não é um movimento consciente e intencional comandado pelos homens, mas uma ação impulsionada pela racionalidade do capital. O consumo do fastfood pelo vietnamita acontece não porque o americano quer mal nutrir este cidadão, mas porque a produção e o consumo, no Vietnã, darão lucro à empresa americana.



[i] Mestre em Economia, professor do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com.).