quarta-feira, 6 de abril de 2016

Crise, política e política econômica

Semana de 28 de março a 03 de abril de 2016

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Caro leitor, esta coluna semanal continuará repetitiva por um longo tempo, pois não há sinais de recuperação da atividade econômica interna. Pelo contrário, todos os cenários só se agravam. Segundo estimativa do Banco Central, a produção industrial este ano recuará 5,8% e o PIB, 3,5%. Estas projeções estão cada vez mais próximas da realidade. Em fevereiro, o consumo de energia elétrica industrial, caiu 7,2% comparado a janeiro, segundo a Empresa de Pesquisa Energética. Para este mesmo mês, dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram a elevada capacidade ociosa da indústria, fechando em 77,6% e a queda de 9,9% no faturamento real das empresas.
As perspectivas sombrias para o ano chegam, de maneira mais intensa, ao mercado de força de trabalho. Em fevereiro, foram fechadas 104,6 mil vagas formais de emprego, conforme pesquisa do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego. E, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE, a taxa de desemprego passou de 7,6%, em janeiro, para 8,2%, em fevereiro. O comércio e os serviços passaram a acompanhar o ritmo de fechamento de empregos da indústria. O comércio fechou 55,5 mil vagas, em fevereiro, número que somado ao de janeiro chega a 125,3 mil vagas fechadas no bimestre. A faixa de trabalhadores mais jovens, entre 18 e 24 anos, é a que apresenta o maior nível de desemprego (20,8%). Em fevereiro, o rendimento médio real do trabalhador caiu 0,3%.
Com rendimentos e nível de emprego em queda, a crise não se reverterá. A demanda continuará a cair, com impacto negativo sobre as vendas. A atividade varejista vai arrefecer e os consumidores não usarão o crédito para consumir já que não terão como pagar pelo consumo adicional. Evidentemente, o setor produtor não aumentará a produção. O desemprego vai aumentar, os estoques vão subir juntamente com a capacidade ociosa e os investimentos produtivos serão adiados. Há quatro anos seguidos que a Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos registra queda nas vendas do setor. Em 2016, a instituição prevê queda de 12% na Formação Bruta de Capital Fixo.
Tal cenário, não foi produzido pela Operação Lava-Jato nem pela crise política.  Todos, sem exceção, deveriam saber disso. Antes mesmo de estes últimos acontecimentos virem à tona, a economia já andava mal. É claro que os dois fatos afetam negativamente a economia. As descobertas da Lava-Jato provocaram a rescisão de contratos com as empreiteiras envolvidas nos escândalos, o que parou obras e gerou desemprego no setor da construção civil. E a crise política engessou quaisquer decisões de âmbito econômico que deveriam passar pelo Congresso Nacional. Porém, atribuir à crise econômica apenas os fatores políticos é, no mínimo, ignorância ou má fé.
O fato é que, desde 2008, o governo tenta minimizar os efeitos da crise econômica que afetou o mundo e o Brasil. Políticas anticíclicas foram utilizadas e por algum tempo, produziram efeitos. Veja-se que, após 2009, o crescimento do PIB foi baixo, mas positivo. Entretanto, o custo veio sobre a forma de déficit público e, para saná-lo, exigiu-se o ajuste fiscal, o que seria a solução de todos os nossos problemas. Na perspectiva de finalmente ter de bandeja as reformas da Previdência, tributária e trabalhista, o setor empresarial vibrou com a contratação de Joaquim Levy. As decisões fiscais somadas à política de juros altos permitiram que a crise mostrasse a sua força.
Mesmo assim, estes fatos não convencem grande parte dos economistas que ainda teima em atribuir, à política econômica, a culpa pela crise. Intervenções heterodoxas, segundo estes, provocaram a quebra da confiança do empresariado e dos consumidores e a economia, diante destas “experiências”, foi lançada ao precipício.
Agora, de mãos atadas, o governo testemunha o afundamento da economia e enquanto a batalha do impeachment convulsiona a nação em uma luta fratricida, todos parecem alheios a uma nova crise internacional que se aproxima.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

sábado, 2 de abril de 2016

ERECO 2016


Participação do Prof. Nelson Rosas na conferência de abertura do Encontro Regional dos Estudantes de Economia (ERECO 2016) com o tema, A teoria dos ciclos e a conjuntura econômica atual no Brasil.


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Entrevista do Prof. Nelson Rosas no programa Primeiro Plano da TV Manaíra.



Confira entrevista do Prof. Nelson Rosas na TV Manaíra, onde fala sobre temas atuais da economia brasileira. Assista o vídeo.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Impeachment e crise econômica

Semana de 21 a 27 de março de 2016

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           
Para nós e nossos leitores não é nenhuma surpresa constatar que a situação econômica continua a se deteriorar. Podemos agora afirmar que ainda não chegamos ao fundo do poço e, como é normal, as grandes empresas passam a sentir o peso da desaceleração e reduzir ou encerrar as suas atividades. Citaremos apenas algumas manchetes dos noticiários para confirmar nossa observação.
As grandes empreiteiras, diante do jejum de obras públicas, encerram atividades e demitem trabalhadores. Só no ano passado isto significou 175 mil vagas eliminadas, reduzindo o contingente de trabalhadores ao menor nível desde 2008. Pedro Celestino, presidente do Clube de Engenharia, afirmou: “Ou muda a política econômica ou a indústria de construção pesada no país vai para o ralo”. A indústria de autopeças perdeu 18% do faturamento no ano passado. A Petrobrás teve, em 2015, o pior prejuízo da sua história: R$ 34,83 bilhões, causado em parte pela “baixa contábil” de R$ 48,3 bilhões, em seu balanço. As tais “baixas contábeis” atingiram não só a Petrobrás, mas a Vale, Usiminas, Gerdau e BM&FBovespa. Todas juntas apresentaram um montante das perdas que somou mais de R$ 90 bilhões. O mesmo ocorreu com Grendene, Embraer, Natura, Tractebel, Senior Solution e Mills. São bilhões de reais destruídos pela crise o que é um efeito esperado e necessário, inerente a este fenômeno.
Entre as montadoras a Randon parou a construção de nova fábrica em Araraquara (SP) e a produção de semirreboques rodoviários em Guarulhos. A Mercedes-Benz suspendeu a programada operação do segundo turno de sua fábrica de carros de luxo em Iracemápolis (SP).
No setor de eletrodomésticos e eletroeletrônicos a situação não é mais favorável. Segundo a Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), em janeiro, referido a janeiro de 2015, caíram as vendas nas seguintes percentagens: TVs 45%, eletroportáreis 50%, ar condicionado 58%, micro-ondas 34%, móveis e eletrodomésticos 24,3%. A Whirlpool, fabricante das marcas Brastemp, cônsul e Kitchen Aid, projeta uma retração de 10% nas suas atividades. A Mabe, dona das marcas Continental e Dako, pediu falência.
A situação no comércio e nos serviços levou ao fechamento de 104,6 mil empregos, em fevereiro. Os serviços encolheram 2,5%, em 2015.
Em relação à economia mundial, as notícias continuam preocupantes. O Banco Central Europeu (BCE) e os agentes econômicos ainda consideram insuficientes as recentes medidas de “relaxamento monetário” e redução dos juros (atualmente entre zero e -0,4). Também se considera difícil mais flexibilização fiscal diante do exagerado endividamento. A solução encontrada foi apelar para medidas que estimulem investimentos em pesquisa e desenvolvimento, melhorias do “capital humano”, aumento de salários, mais contratações e aprimoramento dos recursos humanos, melhorias no ambiente de trabalho, assistência aos filhos dos empregados, etc. Medidas semelhantes têm sido propostas pelo Banco Central do Japão (BoJ).
Todo este ambiente econômico adverso, que tende a se agravar, não aplaca a ira dos agentes políticos engalfinhados em uma luta de vida ou morte para roer os ossos do país e usufruir as benesses do poder. Como diz o cientista político alemão Jens Borchert, da Universidade de Frankfurt, em visita ao Brasil “A democracia brasileira está se desintegrando.”.
Em meio a tudo isto estoura mais um escândalo: o listão da Odebrecht. E desta vez estão arrolados mais de 200 nomes de políticos de quase todos os partidos. O descaramento é de tal ordem que as empreiteiras tinham constituído cartéis que tinham nomes e estatutos: “Sport Clube Unidos Venceremos” e o “Tatu Tênis Clube”. Estava para concluir quando explodiu a notícia do desembarque do PMDB do governo. Uma vibrante reunião com a participação ativa de um dos mais corruptos políticos do país, o presidente da Câmara, que, ao mesmo tempo, comanda o processo de impeachment da presidente e impede o andamento de seu próprio processo de cassação.
É inacreditável!         

[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

terça-feira, 22 de março de 2016

Por cima de queda, coice!

Semana de 14 a 20 de março de 2016

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Como é de conhecimento do leitor, o cenário interno continua a deteriorar-se, tanto do ponto de vista político, quanto econômico. E o resto do mundo, principalmente o desenvolvido, em frangalhos, tenta a todo custo reanimar a atividade econômica. Dados recentes da Eurostat apuraram que a produção industrial na zona do euro subiu 2,1% em janeiro. Embora seja o maior aumento mensal desde setembro, a cautela tomou conta dos comentários, pois a desaceleração da economia mundial é uma realidade da qual não se pode fugir. Por isso, o Banco Central Europeu adotou mais uma rodada de afrouxamento monetário. Nos EUA, a prudência, que sempre esteve presente nos comentários sobre os dados da economia americana, permanece. O Departamento de Comércio apurou que as vendas de fevereiro caíram 0,1% e a revisão dos resultados de janeiro transformou uma alta de 0,2% deste indicador, em queda de 0,4%.
No Brasil, a retração econômica continua a agravar-se. A indústria foi o setor que mais perdeu trabalhadores, no quarto trimestre de 2015, comparado ao quarto trimestre de 2014. A queda da população ocupada foi de 14,5% para 13,4% e a indústria paulista registrou o fechamento de 12.000 postos de trabalho, em fevereiro. Segundo a Pesquisa de Nível de Emprego do Estado de São Paulo, em 12 meses, a taxa de desemprego que era de 8,27%, entre os anos de 2014 e 2015 passou a 10,18%.
Os pedidos de recuperação judicial se estendem agora, às empresas de tubos, conexões e forros de PVC, que foram atingidas pela desaceleração do setor de construção civil e pela paralisação das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A Majestic e a PVC Brazil pediram recuperação em janeiro e, segundo a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), os efeitos já vêm sendo sentidos pela indústria desde 2015. A produção de componentes plásticos caiu 8,7%, pior resultado desde 2009 e a ociosidade média do setor alcançou 37%.
O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) mostrou um recuo de 0,61%, em janeiro, e frustrou as expectativas dos analistas que esperavam uma queda de 0,5%. Algumas instituições já preveem que o PIB deste ano cairá 4,4%.
Enquanto a economia derrete, a presidente Dilma vai perdendo com velocidade máxima, os apoios políticos antes “conquistados”. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), na pessoa do seu presidente Robson Braga de Andrade, lançou na imprensa um “Comunicado à Nação”, externando claramente o posicionamento a favor do impeachment da presidente. Sob a argumentação de dar “...um basta a esse impasse para que o país possa retomar o rumo”, a instituição pede punição aos que afastaram o país “...do caminho do crescimento, provocando o aumento do desemprego, a elevação da inflação e o fechamento de empresas.”
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que serviu almoço com filé mignon aos manifestantes da Avenida Paulista e pôs o seu pato amarelo nas ruas, comunicou que a instituição também apoia o impeachment da presidente. Paulo Skaf, presidente da instituição, assumiu que fará lobby entre os parlamentares pela aprovação do impedimento no Congresso. Críticas também partiram da Associação Comercial de São Paulo, da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo e da Federação do Comércio do Estado de São Paulo.
A Bancada ruralista do Congresso Nacional, autointitulada Frente Parlamentar da Agropecuária, também passou a defender o impeachment. A ruralista-mor, Kátia Abreu, ministra da Agricultura, permanece em cima do muro esperando o momento em que o seu partido, o PMDB, dará a rasteira final na presidente.
Sem nada para mostrar em termos de negociação política e também em termos da política econômica, a presidente Dilma Rousseff, parece estar à espera de um milagre, depositado na figura do ex-presidente Lula que, no momento, oscila entre estar e não estar ministro.
Como diz o nordestino: por cima de queda, coice!

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br