Absorvido o impacto causado pelas estatísticas do quarto trimestre de 2008, que mostraram uma situação preocupante, dois fatos marcaram a semana. O primeiro deles foi a divulgação dos resultados de uma sondagem de opinião que acusou uma queda na popularidade do governo. Embora ainda continue como o mais popular da história, a avaliação positiva (ótimo e bom) que representava 73% dos entrevistados, em dezembro, caiu para 64%, ou seja, uma queda de quase 10%. Por outro lado, a aprovação do presidente caiu de 84% para 78%. A crise e a ameaça de desemprego foram as principais causas apontadas pelas pesquisas. Finalmente, a população começa a descobrir os engodos que têm sido disseminados pelo Presidente Lula. O segundo acontecimento são os pronunciamentos do próprio presidente. O que causou mais comentários na imprensa internacional foi a responsabilização dos “brancos de olhos azuis”, pela crise. Mas o presidente, não satisfeito, em Pernambuco, foi mais além. Lá ele mudou de opinião reconhecendo que “existe uma crise e que ela é muito grave”, mas é como uma gripe. “Num cabra muito fino, deixa ele de cama. Num cabra macho ele vai trabalhar e não perde uma hora de serviço por causa de uma gripe”. E, depois de culpar “a irresponsabilidade do sistema financeiro internacional”, pela crise, ele apresentou sua proposta: “nós vamos enfrentar essa crise trabalhando, quanto mais crise, mais trabalho, quanto mais crise, mais investimentos”. Ele só esqueceu de dizer onde é que os desempregados vão trabalhar e quem fará os investimentos. Não explicou também porque, precisamente os criminosos por ele apontados, os bancos e os representantes do sistema financeiro internacional, são os mais favorecidos pela sua política econômica que garante, aos especuladores, as mais elevadas taxas de juros do mundo. Aliás, vale a pena uma correção. Não é a sua política econômica, mas a política econômica do governo anterior que ele aprimorou e ampliou. Em um seminário promovido pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio), no dia 24 passado, velhos conhecidos como Gustavo Franco e Pedro Malan, fiéis servidores do governo FHC, cansaram de discursar reivindicando a autoria e elogiando a maestria com que o saudoso Antônio Palocci a aplicou.
Não há como deixar de comentar também a última operação da Polícia Federal e do Ministério Público que enviaram para a prisão doleiros e diretores da Camargo Correia por suspeita de fraude e evasão de divisas. É claro que o poder judiciário, como sempre, correu solícito para libertar os trambiqueiros e o Ministro Gilmar Mendes rapidamente se pronunciou contra as arbitrariedades da Polícia Federal. Desculpem-me os leitores, mas é impossível não levantar suspeitas sobre o comportamento do poder judiciário, no país.
As notícias econômicas que enchem os jornais continuam a confirmar o agravamento da crise, no país e no mundo.
No Brasil, a inadimplência subiu de 4,6%, em janeiro, para 4,8%, em fevereiro, e o consumo de energia elétrica, também em fevereiro, caiu de 4,4%, em relação ao mesmo mês do ano passado. Foi o pior fevereiro desde 2002. No primeiro bimestre deste ano, em relação ao ano passado, as vendas de materiais de construção caíram 12%. Apenas em fevereiro, o faturamento do setor caiu 12,5%. Mais grave foi a queda no setor de máquinas. Ela atingiu 25,9%, no primeiro bimestre, em relação ao ano anterior e, só em janeiro, em relação a dezembro, a queda foi de 37,1%. Também no bimestre, o consumo aparente (vendas internas mais importação), caiu 9,4%. As dificuldades das empresas continuaram. Desta vez foi a Suzano Papel e Celulose que anunciou um prejuízo de R$ 451 milhões, em 2008.
Produção industrial de máquinas e equipamentos - Brasil(*)
* Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem.

Faturamento real da indústria
(*)
* Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem.
Fonte: CNI -
Indicadores Industriais
Em relação ao desemprego as demissões também continuaram. De janeiro para fevereiro, o desemprego aumentou de 1,3% com mais 229.000 desempregados, segundo dados do Dieese e da Fundação Seade. A percentagem da população economicamente ativa desempregada aumentou de 13,1%, para 13,9%. Em São Paulo, em fevereiro, a indústria cortou 27.354 postos de trabalho. As empresas que mais desempregaram foram as de médio porte. No bimestre, o estado já acumula 38.770 desempregados. É claro que, nessas horas, os empresários demitem os funcionários mais velhos, com maior escolaridade e principalmente com maiores salários. Empresas como a Bridgestone, além de criarem um programa de demissões voluntárias colocou 1.500 empregados em férias coletivas diante do aumento do estoque para 1,2 milhões de pneus. A Pirelli, também com seus depósitos cheios, resolveu reduzir durante dois meses a sua jornada de trabalho em 18% e os salários em 11%. Ela já havia concedido férias coletivas aos seus empregados desde 19 de fevereiro até 10 de março.

Pessoal Ocupado Assalariado - Brasil
(*)
* Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem.
O Banco Central, em sua pesquisa sobre o humor do mercado, divulgou que os cem agentes consultados estimam, para o ano de 2009, um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 0,01% e que a produção industrial sofrerá uma retração de 2%. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) tem opinião muito semelhante. Estima que o crescimento do país será zero e que a queda da produção industrial será de 2,8%. O nível de utilização da capacidade instalada que, em fevereiro de 2008, era de 81,9%, caiu para 77,6%. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) também reduziu suas estimativas para o crescimento do PIB, de 1,9%, para 0,3%, enquanto aumentou a previsão da inadimplência de 4,9%, para 5,4%.
As medidas para enfrentar a crise, anteriormente chamada de marolinha, agora são tomadas às pressas. A proposta de construir um milhão de casas é uma delas. Embora não se saiba em quanto tempo e o plano não tenha saído do papel a propaganda já está nas ruas. A redução do IPI sobre materiais de construção vem no mesmo sentido. Também foi reduzido o IPI para a compra de veículos o que animou as vendas. O governo resolveu aumentar em duas parcelas o seguro desemprego o que ocorrerá já a partir deste mês.
No mundo, a situação também continua a se agravar. No Japão está prevista para o primeiro trimestre deste ano uma contração do PIB de 15,1%, o pior resultado desde 1945. A produção mundial da Toyota, em fevereiro, em relação ao mesmo mês do ano passado caiu 53%, a maior queda dos últimos 23 anos. A produção da Nissan Motor Co, a terceira maior montadora do país, caiu 51%. Ainda neste mês, as vendas despencaram nos seguintes ritmos: 40% na Toyota, 38% na Honda, 37% na Nissan. As exportações do país caíram, em fevereiro, 49,4% em relação a fevereiro de 2008. No terceiro trimestre do ano passado, o PIB caiu 12,1% e são esperados números ainda piores para o primeiro trimestre deste ano. Nos EUA, as vendas da General Motors caíram 53% e da Ford Motor, 48%. A gigante americana Nike, que é americana, mas não está nos EUA, pois tem 640 fábricas terceirizadas em todo o mundo (principalmente na China, Vietnã, Indonésia, Tailândia e Coréia do Sul), anunciou demissão de 1.400 empregados e cancelamento de encomendas em todo o mundo. A falida Ford que já vendeu as marcas Aston Martin, a Jaguar e a Land Rover agora negocia a venda da Volvo que igualmente vem registrando prejuízos.
No entanto, enquanto a crise abala os alicerces do mundo 25 grandes gestores continuaram a embolsar US$ 11,6 bilhões, entre os quais James H Simons ganhou US$ 2,5 bilhões, John A. Paulson embolsou US$ 2 bilhões e o conhecido George Soros, US$ 1,1 bilhão. Menos sorte tiveram os bilionários russos. Os 25 mais ricos do país perderam US$ 230 bilhões, no fim do ano passado. Oleg Deripaska, por exemplo, teve suas riqueza reduzida de US$ 28 bilhões, para modestos US$ 3,5 bilhões e Vladirir Potanin, dos US$ 19,3 bilhões que possuía, ficou com apenas US$ 2,1 bilhões. Além de provocar estas modestas perdas, estas épocas de crise expõem o lixo que existia debaixo do tapete. Em vários pronunciamentos o primeiro ministro britânico Gordon Brown, por um lado, e a ministra da Economia da Suíça, ajudada pelo presidente da Associação de Bancos Suíços e pelo secretário geral da Associação Suíça de Bancos Privados, trocaram acusações mútuas de abrigarem as maiores máquinas de lavagem de dinheiro sujo do mundo.